Opinião

Música | Manual de instruções para gestos banais

29 jan 2026 08:00

O vinil não é apenas um suporte sonoro; é um artefacto carregado de historicidade técnica e simbólica

Recentemente, uma cantora conhecida relatou à fábrica que produziu os seus discos de vinil uma reclamação curiosa, mas profundamente reveladora: alguns ouvintes afirmavam ouvir “a voz de um homem” ao reproduzir o seu álbum. Mãos na cabeça, bronca total, como é que podia ter acontecido um engano dessa dimensão e se ter embalado o disco errado dentro da capa da artista em questão?

Afinal, a explicação revelou-se caricata: tinham simplesmente colocado o disco na velocidade errada. Contudo, esse equívoco técnico esconde uma transformação mais ampla nas práticas culturais de escuta. O vinil não é apenas um suporte sonoro; é um artefacto carregado de historicidade técnica e simbólica.

Desenvolvido como tecnologia analógica, o seu funcionamento exige uma mediação física precisa: agulha, braço, velocidade de rotação (geralmente 33⅓ rpm para álbuns, 45 rpm para singles). É como meter mudanças num automóvel ou até temperar a água do duche, vá. Estas condições não são meras especificações técnicas, mas parte integrante de um ritual de escuta que implica tempo, atenção e familiaridade com o objeto.

Quando um disco é tocado à velocidade errada, o som distorce e, neste caso, a voz feminina transfigura-se numa tonalidade percebida como masculina. Mas essa “falha” não é só acústica; é também um reflexo dos tempos. O ressurgimento do vinil tem sido frequentemente interpretado como uma reação à desmaterialização da música na era digital. No entanto, este retorno nem sempre se traduz num reaprender das competências necessárias para operar com o formato. Muitos novos consumidores — sobretudo jovens que cresceram na lógica do streaming, onde a música é instantânea, infinita e sem corpo — adquirem vinis como ícones estéticos ou fetiches de autenticidade, sem nunca os terem posto a tocar. Outros tentam, mas deparam-se com um dispositivo cujo uso pressupõe um saber tácito que já não circula socialmente da mesma forma. Outros ainda, que até são do tempo do vinil, só recentemente aderiram à moda que não costuma vir com manual de instruções.

Este episódio não é apenas um mal-entendido que envolve, e por esta ordem, de pânico, alívio e gargalhada. É um sintoma de uma rutura nas formas de relação com a tecnologia musical. Num contexto em que o algoritmo promove a escuta passiva, fragmentada e automatizada, o vinil exige um envolvimento ativo — artesanal. E é precisamente nessa exigência que reside o seu apelo crítico: obriga-nos a confrontar a ilusão de transparência da experiência sonora contemporânea, mostrando que ouvir nunca é neutro — é sempre mediado por dispositivos, saberes e práticas historicamente situados. É o eco de uma cultura a reaprender a escutar-se a ela própria.