Opinião

Música | O renascimento de Vini Reilly

1 out 2026 11:18

Há muito tempo que não ouvia um disco tão bonito e a “culpa” não é só de Vini Reilly. A transcendência e melancolia deste registo faz-se também com a milagrosa voz de Caoilfhionn Rose, com a bateria de Bruce Mitchell e produção, baixo e teclados de Keir Stewart

“Papá, esta música dá-me borboletas na barriga…”, diz-me aqui a minha filha enquanto ouvimos no carro o último disco dos Durutti Column, Renascent.

Percorrendo ruas, ruelas, vielas e passeios junto ao liceu Passos Manuel, em Lisboa, vou descobrindo novos e velhos lugares, deparo-me com cafés antigos, onde ainda se bebem sagres médias pela garrafa, e bares de vinhos frequentados maioritariamente por franceses, gente apaixonada pela nossa capital e, por vinhos, claro. E até passo em frente do Incógnito, outrora lugar de culto indie-pop para este rapaz que escreve estas linhas, linhas essas escritas desta vez num bloco de notas. Pois é. Hoje é dia de entregar o meu texto do Jornal de Leiria, são seis da tarde de segunda-feira e, sem recurso ao computador ou telemóvel, decido despachar serviço à moda antiga com papel e caneta, enquanto aguardo dentro do carro pelo fim do treino de andebol da minha filha.

Tinha pensado em escrever sobre a rentrée cultural, a minha rentrée cultural. Até devo ter umas notas lá no meu computador sobre o filme Odisseia e a peça de teatro A Distância, mas dadas as circunstâncias, resta-me ouvir no autorrádio o disco que mais me fascinou nos últimos tempos. Sem internet e inteligência artificial, não consigo perceber o verdadeiro impacto de Renascent, nem sei se saíram muitas críticas ou entrevistas com Vini Reilly, o artista genial que comanda os Durutti Column desde os anos 80 e que já deve ter mais de vinte álbuns editados.

Em Renascent, ouvimos música que reflete estes novos tempos de agonia e desespero. Na verdade, essas dores, em primeiro lugar, são do próprio Vini Reilly, que nos últimos anos tem passado um mau bocado com graves problemas de saúde. A beleza deste disco passa também pela “imperfeição” causada ora pelo dedilhar da guitarra ora pelo sussurrar das canções (Vini Reilly ficou com algumas sequelas dos acidentes vasculares que sofreu).

Há muito tempo que não ouvia um disco tão bonito e a “culpa” não é só de Vini Reilly. A transcendência e melancolia deste registo faz-se também com a milagrosa voz de Caoilfhionn Rose, com a bateria de Bruce Mitchell e produção, baixo e teclados de Keir Stewart. Ouvir a balada “Sargasso Sea” ou as simples palavras “I’m sorry, I love you” ditas por Vini Reilly em jeito spoken word apertam-nos o coração e arrepiam-nos a pele. Mas no meio de toda esta escuridão, há uma luz que se acende lá bem ao fundo, tanto para Vini Reilly como para todos nós. A esperança é a última a morrer.