Opinião
Música | Os Massive Attack na lista de indesejáveis
A música não apenas reflete o mundo: ajuda a transformá-lo. E os Massive Attack sempre souberam disso. Desde os anos 1990, a sua obra tem sido atravessada por denúncias contra guerras, desigualdades sociais, vigilância de massas e injustiças sistémicas
Na paisagem aparentemente inofensiva da indústria musical contemporânea – muitas vezes reduzida a entretenimento descartável, playlists algorítmicas e estrelas fabricadas para brilhar por minutos –, a postura militante de bandas como os Massive Attack surge como um incómodo deliberado. Esse desconforto não nasce apenas das suas posições políticas explícitas, mas sobretudo do choque que provocam num certo tipo de “fã”: aquele que encara a música como um espaço neutro, apolítico, quase decorativo. Para esse ouvinte, a arte deve entreter, não questionar; distrair, não mobilizar. E é precisamente aí que reside o poder subversivo da música: quando recusa essa neutralidade fingida e assume o seu potencial de intervenção.
Não é por acaso que, ao longo da história, regimes totalitários tenham perseguido artistas com tanta obsessão. Sabem bem que uma canção pode incendiar mais consciências do que um discurso político – porque fala ao corpo, à emoção, ao imaginário coletivo.
A música não apenas reflete o mundo: ajuda a transformá-lo. E os Massive Attack sempre souberam disso. Desde os anos 1990, a sua obra tem sido atravessada por denúncias contra guerras, desigualdades sociais, vigilância de massas e injustiças sistémicas. Essa coerência ética custou-lhes caro mesmo desde o início: durante a Guerra do Golfo, em 1991, foram pressionados pelas estruturas políticas e mediáticas britânicas a abdicarem do nome “Massive Attack” – considerado demasiado agressivo – passando temporariamente a chamar-se apenas Massive. Um episódio revelador de como, mesmo numa democracia liberal como a do Reino Unido, há limites tácitos ao desacordo artístico quando este colide com narrativas de Estado.
De lá para cá, o Reino Unido tem sido um barómetro cultural, mas também político. Hoje, esse risco persiste, embora assuma novas formas. Basta lembrar as chamadas “listas de indesejáveis” elaboradas por movimentos de extrema-direita em vários países, não só em Portugal, onde figuras da cultura – músicos, atores – são sistematicamente visadas por ousarem tomar posição contra a xenofobia, a negação climática ou o genocídio em curso na Palestina.
Os Massive Attack, com as suas campanhas ambientais, o apoio ao movimento pró-Palestina e a crítica constante ao complexo militar-industrial, estão naturalmente no alvo. Mas talvez o verdadeiro escândalo não seja a militância dos artistas – é a recusa em reconhecer que toda a arte pode ser política.
Nesse sentido, o incómodo causado pelos Massive Attack é um convite: a sair da passividade, a perceber que ouvir também é uma forma de escolha. Mas como em tudo, podem sempre não ouvir: desligar o cérebro também é uma opção, pelos vistos, bastante popular.