Opinião
"Nunca percas o último dia do Verão"
Os textos só se cumprem quando encontram quem os leia
Esta não é a minha primeira crónica sobre literatura infantil, nem sobre um certo tipo de livros que ocupa um lugar privilegiado nas minhas estantes. Maurice Sendak, Jimmy Liao e Shaun Tan formam a tríade que habita esse pódio muito particular. Três autores cujas obras convocam a memória, os medos e as perguntas que atravessaram a infância sem nunca encontrarem resposta.
As Regras do Verão, de Shaun Tan (ed. Kalandraka), um dos mais notáveis criadores de livros ilustrados da actualidade, pertence a essa categoria rara de livros que recusam classificações. À primeira vista, parece um álbum ilustrado, mas depressa percebemos que é muito mais do que isso: um mapa secreto da infância, desenhado com a linguagem dos sonhos.
A narrativa estrutura-se como um diálogo entre dois irmãos, em que o mais velho explica ao mais novo tudo aquilo que deve fazer – ou evitar – ao longo da estação das grandes férias. Mas as regras que estruturam o livro nunca chegam a ser explicadas. «Nunca deixes uma bandeira vermelha sozinha.» «Nunca entres na água depois de escurecer.» «Nunca respondas a uma pergunta da qual já sabes a resposta.
» Cada uma delas parece nascer de uma lógica própria, tal como durante a infância, quando aceitávamos certas verdades sem exigir explicações. Não porque fossem racionais, mas porque eram habitadas pelo espanto.
Shaun Tan recorda-nos que crescer é aprender a conviver com o inexplicável. As suas ilustrações, belas e inquietantes, colocam-nos diante de criaturas improváveis e paisagens familiares transfiguradas pelo fantástico. Perante elas, o leitor deixa de procurar um significado único e aprende a aceitar que há histórias cujo lugar é o da imaginação.
Talvez seja essa a maior virtude deste livro: devolver-nos a capacidade de olhar demoradamente. Num tempo em que tudo nos empurra para a velocidade, Shaun Tan convida-nos a permanecer mais alguns instantes diante de uma imagem, a descobrir detalhes escondidos e a regressar às páginas como quem regressa à infância, onde o mistério caminhava lado a lado com o absoluto.
Em apenas quarenta e seis páginas, Shaun Tan enuncia, sob a aparência desconcertante das suas regras do Verão, uma discreta educação para a vida. Algumas delas só se tornarão inteligíveis muitos anos depois; outras permanecerão para sempre incompreensíveis. Ainda assim, acompanham-nos e tornam-se parte da narrativa que construímos sobre quem fomos e sobre quem continuamos a ser.
Numa das mais aparentemente simples regras do livro – «Nunca percas o último dia do Verão.» – Shaun Tan recorda-nos aquilo que o crescimento lentamente vai erodindo: a irrepetibilidade do instante e a necessidade de proteger esse território onde ainda moram as coisas selvagens.
É com estas regras para todas as estações que me despeço dos leitores do JORNAL DE LEIRIA. Por razões de disponibilidade pessoal, esta será a minha última crónica neste jornal, ao qual agradeço a confiança, a liberdade e o espaço que me concedeu para escrever sobre os temas que me apaixonam e inquietam. Agradeço igualmente a todos os leitores que acompanharam estas crónicas e lhes deram o seu verdadeiro sentido. Os textos só se cumprem quando encontram quem os leia. Foi um privilégio poder partilhar convosco estas páginas.