Opinião

O cão sem nome

30 jun 2026 07:03

Hoje tentei explicar em italiano, o cão olhou de lado e ninguém percebeu nada mas bebeu-se mais uma, e o último pedaço de hambúrguer foi para ele

Hoje venho falar-vos de um cão sem nome. Começo logo por faltar à verdade, sendo que partilhamos esta esfera onde nada é literal e qualquer entendimento assenta, inevitavelmente, numa génese de fábula mesclada com os meandros dos olhos que a decifram. Vamos lá ver, o cão tem nome. Chama-se Maré. E aqui faz-se o bypass literário para o que quero realmente contar.

Vivendo numa praia, sou muitas vezes abordada por estrangeiros passantes que se encantam com a natureza plácida, submissa e cheia de espaço para acolher que caracteriza o meu cão. A pergunta vem formatada e só difere no idioma: como é que ele se chama? A resposta faz dele um cão sem nome, porque me vejo aflita para explicar nas várias línguas que ele, um cão muito macho, se chama Maré - um substantivo muito fêmea, que remete ao que vai e vem, ao que pode ser grande ou pequeno, alto ou baixo, cheio ou raso, ao que depende das luas, cíclico, orgânico, natural. Hoje tentei explicar em italiano, o cão olhou de lado e ninguém percebeu nada mas bebeu-se mais uma, e o último pedaço de hambúrguer foi para ele.

O Maré treme muito, treme sempre, mesmo quando arde incenso na sala e o sofá é todo dele. Não tem frio, é o pino do inverno e a lareira acesa permite trajes menores. Ou então é verão a abrir, noites que escancaram janelas de par em par, e ele treme mesmo assim. Também não é medo, não. A música toca baixinho, ele encaixa o focinho na dobra da minha perna, eu falo-lhe sobre a sorte de ele ter vindo parar aqui, muito mais minha que dele, cão destinado ao resgate de mim, cão que moveu os cordelinhos do acaso e me esperou, ferido de morte, na firme missão cósmica de me encher os dias com um propósito. E como eu precisei daquela catrefada de quilómetros a pé, arrastada pelo frenesim ardiloso de um número aleatório de cocós, necessariamente distantes no espaço. Muita maresia nos focinhos. Valeu, Maré.

Passaram dez anos disto. O cão está velhote, não sei dizer quantos anos tem. Não sei dizer quantos anos tenho - embora, ao contrário dele, tenha um registo formal do ano em que nasci. Também tremo, sem ser de frio nem de medo. É uma coisa a que chamam ansiedade, não se vê de fora e arruma-se por dentro como se pode, para não dar azo a perguntas como as que se repetem sempre, sempre, acerca das tremedeiras do Maré. Ele está bem, afianço, eu sei lá o que passou lá atrás, quando eu não supunha que existia. Traz ainda tudo com ele, não trazemos todos? Quando a vida pergunta pelo amor que não fiz, pelo amor que não se diz, pelo amor que não me quis, eu tremo também. A sorte é que é lá por dentro e não se vê, não precisa de ser explicado, muito menos em idiomas que não domino.

Chegou o verão. Vou dedicar a próxima tarde morta a estudar a tradução de Maré nas línguas que mais invadem as praias. Assim, quando me perguntarem como é que o cão se chama, o cão terá nome. Fica ao critério de quem o afaga dar o passo seguinte, que será olhar por debaixo da cauda e perceber que sim, é macho, e sim, tem nome de coisa fémea. Nesse particular, não me peçam mais explicações, que o estudo não dará para me alongar em poesia. Agora que penso nisso, talvez não seja pior aprender também como dizer em estrangeiro que é por isso mesmo que ele treme - disforia de género mal resolvida.

O cão sem nome, que se chama Maré, continua a resgatar-me todos os dias. E a tremer de tal forma que não me deixa adormecer sem que tenha de o expulsar da cama. No fundo, não passamos de duas crises de ansiedade que coabitam, uma com mais pêlos e pior hálito do que a outra.