Opinião
O invisível
Não por acaso a saúde se define como estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença ou enfermidade
Construímo-nos a partir de dentro. Tudo o resto, o nosso corpo, as interações que estabelecem com outros, as construções sociais, espirituais, ambientais ou económicas mais ou menos complicadas em que nos movemos e o modo como nelas nos movemos suportam-se nessas construções interiores. Por isso se inventaram formas de conforto individual e de reposição de equilíbrio nos diversos grupos. Construções múltiplas e frequentemente interativas que vão desde a gestão do lazer às práticas religiosas ou às diversas manifestações artísticas, nas suas facetas mais reservadas ou mais exuberantes, mais simples ou mais complexas. Não por acaso a saúde se define como estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença ou enfermidade. O dentro, o nosso dentro individual ou coletivo é invisível e difícil de ler quando não ilegível, visíveis são só as suas manifestações, sendo frequentemente as ações concretas que lhe são dirigidas remetidas para a esfera do inútil e do supérfluo. Tanto faz que falemos de fruição de um fruto do labor do artista ou do artesão como de um mergulho na natureza, olhar um quadro, ouvir uma música, descer e subir uma serra, dançar, sentarmonos à sombra, conversar ou ler um livro são, na cabeça de muita gente, inutilidades. E no entanto são essas coisas que permitem crescer, ficar um bocadinho mais inteligentes ou, talvez para muitos mais, simplesmente encontrar um equilíbrio, restabelecer um estado de tranquilidade e conforto. Cada um saberá de si. Precisamos de empregos, de equipamentos sociais básicos, de uma casa, de reconstruir e construir tanto como precisamos de nos encostarmos a um balcão a comer uma patanisca e a beber um copo com amigos no meio da confusão, trocar dois dedos de conversa e mostrar que afinal agora somos todos especialistas em telhas, precisamos de viver coisas, precisamos de muita gente a passear na rua, precisamos da alegria dos outros. Precisamos absolutamente de inutilidades, para não ficarmos doentes a sério.