Opinião

O Lado Lunar | Cala-te poeta

8 nov 2026 09:00

Sugestão: Tirarmos todos, os ativistas e os decorativos, uma soma dos nossos cachets em Portugal e organizarmos um fundo de habitação. Ou só vale cantar e falar?

Para uma parte significativa dos meus conterrâneos, eu e outros “artistas” que tais somos funcionários públicos. Vivemos de “subsídios” e de outros expedientes, velhacamente investigados nos portais que, por lei, publicam as adjudicações para a “cultura”, essa coisa nominalmente imprestável.

Longe vão os tempos em que explicaria a diferença entre o valor de uma adjudicação e aquilo que um músico leva para casa. Pelo meio há equipas, salários, transportes, equipamento, produção, impostos. Explicaria também que o setor cultural dá trabalho a mais de 200 mil pessoas em Portugal, gera milhares de milhões de euros de riqueza e contribui para as receitas fiscais e para a Segurança Social.

Não me apetece. Não vale a pena. Não merecem.
 
Trabalho para a minoria que me atura, convencida de que, somas à parte, enriqueço, de algum estranho modo, a sua vida. Obrigado.
 
Entretanto, preocupa-me o que vem a público na nossa comunidade política. Perdão, artística. Desculpem a confusão: pelos vistos, devem ser a mesma coisa.
 
Segundo uma declaração de Tim, dos Xutos & Pontapés, divulgada pelo Expresso/BLITZ:
“Músicos que não intervêm politicamente são como flores de plástico, só servem para enfeitar, não servem para mais nada.”
 
De cortar a respiração.
 
Haverá contexto, decerto. Mas a frase circula sozinha, pronta a partilhar, e é essa ideia que me interessa discutir: cabe agora ao posicionamento político decidir quem tem valor na música e quem é apenas enfeite?
 
Se Thom Yorke nunca tivesse participado numa campanha, OK Computer passava a ser decoração? Se os Portishead nunca tivessem apoiado uma causa, Dummy perdia a sua profundidade?
 
E por cá? A intervenção da Capicua tem valor. Mas isso torna a voz de Mariza ou a interpretação de Carminho menos relevantes? Bárbara Tinoco precisa de escrever um manifesto para que uma canção sua tenha significado na vida de alguém? Abrunhosa, sim, Miguel Ângelo, não?
 
Não estou a comparar percursos, talentos ou convicções. Estou a perguntar quem decidiu que todos têm de cumprir a mesma função.
 
Uma canção pode falar de amor, perda, desejo, solidão ou de coisa nenhuma que saibamos explicar. Pode inquietar, consolar, divertir. Não precisa de apresentar uma solução política para tocar em alguma coisa essencial.
 
Vindo de um músico, esta divisão soa-me particularmente mal. Já temos gente suficiente a distribuir certificados de utilidade e a pôr-nos uns contra os outros. A liberdade artística também devia incluir a escolha do que se quer dizer, de como dizê-lo e de quando ficar calado.
 
Outro testemunho foi o de Cláudia Pascoal, que disse que iria adiar o seu novo trabalho por o sentir pequeno perante tudo o que está a acontecer em Portugal.
Respeito a decisão. Mas será que a música precisa de competir com a dimensão dos acontecimentos para merecer existir?
 
Os Beatles lançaram Abbey Road em plena Guerra do Vietname. David Bowie lançou Ziggy Stardust em 1972, com a guerra ainda a decorrer. Nenhum desses discos acabou com o conflito. Mas teria o mundo ganho alguma coisa se tivessem ficado por editar?
 
Se guerras, crises e injustiças fossem motivo para suspender a criação, quando seria legítimo lançar o próximo disco?
 
Uma canção pode parecer pouca coisa perante uma tragédia. Para quem encontra nela companhia, coragem ou algum alívio, pode ser muito. Quem decide continuar a criar não está, por isso, a virar as costas ao mundo.
 
Tenho um bom amigo no Miguel Tiago, do PCP. Quando o ouço, reconheço estudo, convicções e conhecimento dos assuntos. Não tenho de concordar com tudo para respeitar esse trabalho. E é precisamente por respeitar a política que não confundo uma tomada de posição com profundidade, nem uma palavra de ordem com pensamento. Nem banalidades, com seriedade.
 
Os músicos têm todo o direito de intervir. Também têm o direito de não fazer do ativismo o centro da sua obra. Nenhuma dessas escolhas garante talento, lucidez ou relevância. Isso exige um pouco mais de trabalho do que separar pessoas entre flores naturais e flores de plástico.
 
Sim, eu sei, calado era um poeta.
 
Mas não se preocupem, isto é só decoração.
 
Sugestão: Tirarmos todos, os ativistas e os decorativos, uma soma dos nossos cachets em Portugal e organizarmos um fundo de habitação. Ou só vale cantar e falar?