Opinião

O Lado Lunar | Ser político

1 nov 2026 09:42

Não é por um músico não ser “ativista” em cada segundo da sua performance, que não é ativo e válido socialmente. [Há] outro modo de contribuir sem nos acharmos profetas, de forma mais silenciosa, mais direta aos problemas, menos diretos na televisão ou redes sociais

Existe uma pressão gigantesca para os artistas se posicionarem politicamente.

Se é uma reivindicação justa ou não, o tempo o dirá.

Tempo esse que não temos.
 
Além da pressão, há uma direção imposta. 

Um conjunto de regras não escritas, mas inscritas, que permitem uma só via de pensamento, sem direito a alternativas, nuances, contextos ou retificações de qualquer género. 

Esses regulamentos descrevem, sem apelo nem agravo, quem são os culpados, as respetivas vítimas, quem manda e desmanda no mundo, o que devemos dizer, que causas defender, como, quando e porquê.
 
Há aqui dois fenómenos que teimamos em não observar:
 
- Uma indisfarçável sobranceria, i.e., um sentimento de superioridade em relação a quem não pensa ou age como nós
- Uma “infalível” retórica que nos empurra para os “ismos”: whataboutismo; fascismo; comunismo, todo um sortido rico de ruído que impeça o debate, a discórdia, a dinâmica e, finalmente, quem sabe, ao compromisso que permita que a vida avance em conjunto. 
 
Falemos de músico, ou, pelo menos de músicos.
 
A 10 de outubro de 2026, James Hetfield, vocalista dos Metallica, aquando da sua recordista residência no Sphere em Las Vegas, proferiu a seguinte frase, em tradução livre:
 
“A agenda dos Metallica é amor, energia e Heavy Metal. Ao contrário de outros entertainers, os Metallica não estão aqui para vos influenciar.”. 
 
Em resumo, Hetfield agradeceu o esforço dos fãs para estarem presentes afirmando que os Metallica não pretendem usar os concertos para influenciar politicamente o seu público, mas proporcionar um momento de afastamento dos problemas exteriores.
 
Apesar de não se conseguir provar por A+B de que se referia especificamente a Macklemore ou à Palestina (na tour de Ed Sheeran) foi esse o entendimento global. 
 
Roger Waters, o músico que se tornou sentinela do comportamento dos seus colegas veio a jogo reagindo com insultos pessoais a Hetfield, numa participação no The Katie Halper Show, divulgada a 15 de outubro.
 
Chamou-lhe “um completo idiota” (“a complete prick”, no original, mais ofensivo), disse que tinha “um QI de cerca de três” e classificou-o como “um ninguém”. Também atacou a sua capacidade musical, afirmando que ouvira os Metallica tocar instrumentos acústicos e achara a atuação péssima. 
 
A reação passou, portanto, da discordância sobre o papel político dos artistas para um ataque à inteligência e ao talento musical de Hetfield. 
 
Típico. 
 
Deixo-vos algumas notas para pensarem e verificarem ou não a legitimidade da “inação” política dos Metallica ou se, pelo contrário, eles, nas suas grandes capacidades estarão a fazer coisas mais significativas do que retirar e tornar a por a sua música no Spotify, como fez um incrédulo Salvador Sobral (que referiu não conseguir quase acreditar que a sua renúncia não trouxe mais frutos ou “colegas” que seguissem seu virtuoso exemplo); ou cantar numa acampada (onde bandas  de rock e heavy metal não entram porque, se calhar não atingem a extensão do domínio de luta).
 
Os Metallica são a maior banda de Heavy Metal do mundo. 
 
E são solidários.
 
A fundação dos Metallica chama-se All Within My Hands (AWMH). Foi criada em 2017 pelos membros da banda e pela sua equipa de gestão.
 
Apoia sobretudo:
 
Combate à fome, através de bancos alimentares.
 
Formação profissional, incluindo o programa Metallica Scholars.
 
Serviços comunitários essenciais e ajuda em emergências.
 
Segundo a fundação, 100% dos donativos recebidos são destinados às organizações apoiadas; a banda e o conselho de administração pagam as despesas de funcionamento.
 
Em Portugal apoiou com 18.000 € o Banco Alimentar Contra a Fome repartidos pelos 21 Bancos Alimentares então existentes em Portugal, para despesas de funcionamento, por ocasião do seu concerto de 1 de fevereiro de 2018 — Lisboa, na Meo Arena
 
A  1 de Maio de 2019 (Estádio do Restelo, Lisboa) apoiou a Associação o Joãozinho, do Porto, com a entrega de 40.000€ para apoiar a construção da nova ala pediátrica do Hospital de São João
 
Outros exemplos de apoio alimentar na digressão europeia de 2024:
 
Na digressão europeia de 2024, os apoios ao combate à fome incluíram:
— Munique: 80 mil euros à Münchner Tafel.
— Viena: 20 mil euros à Die Tafel Österreich.
— Copenhaga: 40 mil euros à FødevareBanken.
— Oslo: 40 mil euros à Matsentralen Oslo.
— Clisson: 40 mil euros à Banque Alimentaire e outros 40 mil aos Restos du Cœur.
— Varsóvia: 40 mil euros ao Bank Żywności SOS w Warszawie.
— Madrid: 60 mil euros à Fundación Banco de Alimentos de Madrid.
 
As ações também envolvem os fãs: no AWMH Day of Service, em maio de 2019, participaram mais de 3.000 fãs e apoiantes em ações de voluntariado com bancos alimentares nos Estados Unidos. 
 
Mesmo sem terem fundações próprias, Waters e MackelMore também se têm distinguido, com menos frequência e mais esporadicamente, em ações solidárias com veteranos de guerra no caso do primeiro; ou o rapper que canaliza fundos para associações como a UNRWA USA ou a ANERA, ambas investigadas por ligações ao grupo terrorista Hamas.
 
Em conclusão não é por um músico não ser “ativista” em cada segundo da sua performance, que não é ativo e válido socialmente. Aquela frase partilhada pelo designer de moda, Nuno Baltazar, que compara o músico que não usa o seu “privilégio de palco” para se manifestar, muitas vezes conforma a uma cartilha designada à priori, resulta ofensiva para todos que como eu preferem outro modo de contribuir sem nos acharmos profetas, de forma mais silenciosa, mais direta aos problemas, menos diretos na televisão ou redes sociais.
 
Antes de acabar, invoco outra vez o livro de Anton Jäger (Hiperpolítica) que aufere dos resultados práticos desse intervencionismo artístico e se as mudanças e os recuos se compadecem ou não com cantigas, como nos anos setenta.
 
Como nota de interesse, e somente isso, tenho colaborado ou colaborei em nome próprio ou Moonspell com a Liga Portuguesa contra o cancro, Acnur, Unicef, Wikipedia, Abesra, ABCD, entre outras. Se cantarei ou não numa acampada, o tempo também o dirá, ou não.
 
Entretanto, continuo a preferir a solidariedade melódica da música à desarmonia pública da política. 
 
Até para a semana, bom Halloween!