Editorial

O longo inverno na Marinha Grande

24 set 2026 08:08

Oito meses depois, a reconstrução ainda decorre, a ritmos diferentes, em toda a região atingida pela tempestade

Aproximam-se as noites mais escuras e longas e esta semana começou oficialmente o Outono. Depois do calor, mesmo fora de época, virá a chuva, e o vento, a soprar memórias adormecidas.

Na Marinha Grande, entretanto, continua a funcionar o Armazém Solidário, criado após o temporal de 28 de Janeiro. Com 468 voluntários e 4.839 pessoas apoiadas, até à data, naquele concelho e em territórios vizinhos, uma espécie de farol que ilumina traumas e impede que se esqueçam as famílias afectadas pela depressão Kristin.

Oito meses depois, a reconstrução ainda decorre, a ritmos diferentes, em toda a região atingida pela tempestade. Na Marinha Grande, é como um longo Inverno que cobre de nevoeiro o horizonte.

No pinhal já amputado pelo incêndio de 2017, persistem as marcas da destruição. Na indústria de moldes, a atravessar um período difícil, o impacto revela-se nas estatísticas do comércio internacional, com as exportações a recuarem no primeiro semestre em contraciclo com a trajectória a nível nacional. No desporto, em vários clubes, estão por lançar os investimentos necessários para reabilitar ou substituir instalações. O mercado municipal depende de uma solução temporária. Em São Pedro de Moel, a Casa-Museu Afonso Lopes Vieira, com problemas estruturais expostos pela chuva no mês de Fevereiro, permanece encerrada. E o Teatro Stephens mantém-se fechado, com alguma programação a acontecer, em alternativa, nos auditórios do Sport Operário e da ACR Comeira, por exemplo. Ao contrário do que sucede em Leiria, Pombal, Ourém, Batalha ou Alcobaça, onde os teatros, bibliotecas, centros de artes e monumentos (incluindo os castelos e mosteiros) já voltaram a receber público.

Na reconstrução das habitações, em meados de Setembro, do total das 2.706 candidaturas a apoios a aguardar validação de câmaras municipais, 2.050 estavam na Marinha Grande, o que significa que 76% dos processos parados são da Marinha Grande, de acordo com os dados oficiais disponibilizados na plataforma Gov.pt. Ao mesmo tempo, algumas casas da Câmara, de habitação social, seguiam, até há semanas, com danos por reparar e infiltrações.

É um desafio sem precedentes. Muito está feito, muito está por fazer. Resolver os prejuízos materiais torna-se urgente, mas cuidar das feridas emocionais também, antes que a melancolia roube a esperança.