Opinião
O velho candeeiro da rua sem saída da cidade de alma velha
E assim se ia vivendo, sempre relembrando a necessidade de que o novo viesse substituir o velho
Num certo outono, uns habitantes de uma cidade de alma velha resolveram pedir que se procedesse à substituição dos candeeiros de uma das ruas sem saída. Queriam, para aquela parte da cidade de alma velha, uns candeeiros de alma nova.
Iam alegando os moradores que aqueles antigos já não davam conta do recado, não iluminavam a rua com o brilho que ela merecia, atraiam, em demasia, mosquitos e outros insetos e que o material se encontrava obsoleto e que punha em causa a segurança dos moradores, entre outros tantos depreciativos predicados.
E foram para a rua reivindicar, exigir, revoltar-se, gritar palavras de ordem para que o novo substituísse o velho.
Depois de tantas e tão radicais ações, as entidades competentes lá cederam. Quando se começou a substituição, um dos novos altivos e sobranceiros candeeiros apareceu amolgado na "casca", rasgado no brilho metálico, atingido no porte.
Os habitantes, absolutamente embicados para que tudo brilhasse e fosse completamente genuíno, acharam conveniente deixar o velho candeeiro da rua sem saída até que um novo brilhante, lustroso e reluzente viesse para tomar o seu lugar.
Junto aos novos, o velho candeeiro da rua sem saída ia piscando os olhos, ferido na visão e no coração. Com enorme dificuldade, aquele lampião ia debitando uma luz trémula, intermitente e pálida.
Na verdade, nem se dava por ele, mas os habitantes davam e lá voltavam as reclamações para os órgãos competentes. Que parecia que nem luz havia naquela zona, que era um perigo para os moradores aquela falta de iluminação, que só dariam conta das coisas quando alguém lá fosse assaltado, entre mais outros tantos depreciativos predicados.
E assim se ia vivendo, sempre relembrando a necessidade de que o novo viesse substituir o velho.
Certo dia, já o outono ia bem entradote, um vento forte, furioso, hostil, violento e colérico resolveu fustigar superfície e interior da Terra com uma força descontrolada, digladiadora, destemida, inesperada e insólita.
Telhados voaram, árvores foram mutiladas, pessoas perderam a vida, e vidas, a Terra revirou as entranhas, as estradas fragmentaram-se, a comunicação perdeu-se.
Passada a tormenta, os habitantes daquela rua sem saída da cidade de alma velha, abandonaram as suas casas, ainda em pânico, ainda assarapantados com a revolta da Mãe Natureza.
O que viram?
Nada! Não viram nada! Toda a rua sem saída estava cega. Os novos olhos brilhantes e altivos que a iluminavam tinham sido completamente arrancados do solo.
Pelo contrário, a trémula, intermitente e pálida luz do velho candeeiro mantinha-se.
Nunca ninguém explicou porquê, mas, a verdade, é que aquele velho candeeiro da cidade de alma velha permaneceu intacto, inatingível e, continua, ali, debitando à rua sem saída da cidade de alma velha uma alma (re)nova(da).