Opinião

O Velho e a Raspa

12 fev 2021 16:43

Há quem lhes chame negacionistas, como antes se chamavam loucos aos que galgaram o mar desconhecido.

Intriga-me sobremaneira a adesão popular no apoio ao pequeno e médio comércio durante o período de recolhimento.

É certo que outra coisa não seria de esperar de uma sociedade amadurecida por nove séculos de história e meio século praticamente sem fome.

Deparo-me, todas as tardes e manhãs, com aglomerados de idosos ordeiramente perfilados para comprar a sua Raspa.

O seu passaporte para o other side, qual mar ancestral que intrigava curiosos e afoitos do ouro que imaginavam.

São velhos, mas guardam em si, em cada euro derretido, o espírito indomável dos ainda mais velhos navegadores.

Outros há que de forma marginal deambulam pela Marquês de Pombal em busca de uma bica ou de um pão com fiambre.

Há quem lhes chame negacionistas, como antes se chamavam loucos aos que galgaram o mar desconhecido.

Estamos à porta do Entrudo, pela segunda vez um Carnaval sem qualquer graça.

Um corso recalcitrante que ao invés de se dirigir à sede de um partido, ao postigo de um snack-bar ou às traseiras de um lar ou centro de saúde em busca de reparadora vacina, vagueia – geralmente com uma utilização criativa da máscara - pelos labirintos da cidade à procura de um descafeinado com adoçante ou dois dedos de conversa com alguém que saiu incólume do hospital ou da reclusão domiciliária.

Os hábitos de leitura definham neste período de estranha valorização do segmento tosquias.

É verdade que no atual regime político o leitor não precisa de andar penteado, mas também é verdade que conheço muitos cães que nunca precisaram de ser tosquiados para manter o seu bonito ladrar, ou para desenterrar toupeiras.

O momento é de facto complexo.

Sem restaurante, leituras, ou barbeiro, como poderei gozar o sexy Valentim?

Recuso o enésimo fracasso, ou tão miserável prémio que rapidamente gasto em mais uma volta no carrossel da esperança, vulgo: mais dois descafeinados.

A receita, na verdade, é simples: passarei essa noite - para alguns a mais bonita do ano, para outros a única – a roçar a unha num generoso monte de raspadinhas.

Irão alguns leirienses trocar o mar por um punhado de raspadinhas?

Será que, à imagem do romance de Hemingway, os velhos vão manter a coragem de ser velhos sem medo?

“Não penses, velho. Segue o teu rumo e aceita o que vier. (…) É preferível ter sorte. Mas eu prefiro ser exacto. Assim, quando a sorte vem, está-se pronto para ela. (…) O homem não foi feito para a derrota. Um homem pode ser destruído, mas não derrotado.” 

Texto escrito segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990

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