Opinião
Ode ao Pedro!
Obrigada Pedro, porque até no dia da tua partida nos juntaste todos, e merecidamente, para te honrar.
Mesmo que não pensemos muito nisso, as artes ampliam-nos de camada em camada e ficam impregnadas no nosso ADN e no modo como vemos a vida e o que vai acontecendo à nossa volta.
Fazem-nos pôr tudo em perspetiva e razão de ser, e mesmo quando achamos que não, a memória de si, mesmo que adormecida, vem à superfiície.
Não é por acaso que, para além de nós, somos feitos de todas as pessoas com as quais convivemos ou todas as experiências com as quais nos vamos cruzando no caminho e que fazem de nós, nós.
No último mês, e desde a minha crónica anterior foram muitas e avassaladoras as minhas experiências com as artes.
Para além de transformadoras, foram momentos de catarse, de reunião, de reflexão, de relação com outros e outras, e de ampliação.
Engraçado como em pelo menos três desses momentos encontrei caras, que encontro desde há muitos anos nesses locais, e que juntos partilhámos referentes e memórias comuns, que nos colocam sempre que nos encontramos em diálogo saudável e saudosista, mas também de olhos postos no futuro.
Momentos em que por intermédio das artes, partilhámos experiências, sorrisos, uma espécie de êxtase e uma sensação de pertença à “tribo”.
Os grandes responsáveis por esta sensação de pertencimento são os artistas, e todas a pessoas e estruturas que gravitam ao seu redor e que criam as condições para que a malta de aproxime e que grave memórias singulares e coletivas.
Pessoas como o Pedro. O Pedro Oliveira, que nos deixou fisicamente por estes dias, e que não poderia deixar de homenagear mesmo que de forma singela neste espaço.
Pessoas que como o Pedro fazem parte das minhas memórias desde que me conheço como pessoa que participa nas atividades das artes, que não estão em compartimentos estanques, mas que se confundem com a nossa, as nossas vidas…
De memórias do Pedro, há desde sempre o teatro na escola, ainda bem pequena, na sala da D. Alice, ou quando jovem adulta conheci o Sepúlveda, na História da Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar, protagonizada pelo Pedro, dos inúmeros festivais de Teatro o Acaso, e não será por acaso seguramente, que me lembro de um Estamos Monstros de Risa, já tão antigo, mas sob a sua curadoria.
Das técnicas de teatro “ o que é isto???”, que repetidamente fazíamos nuns ateliers de teatro para adultos nas noites frias de um inverno antigo, do Max Aub e dos surrealistas “nonsense”, que me deu a conhecer, deixa ver se me lembro : “matei-o porque …”
Tantas e tantas memórias do Pedro, de o ver de cabelo encaracolado desgrenhado, do seu mau feitio aparente de coração gigante, a juntar as mãos em pirâmide e a começar a contar…a contar histórias, como ele só.
De como me recebeu ( e a Vitória) na sua casa para uma sessão de conversa com contadores de histórias. Do “Viemos Todos de Outro Lado”…
No dia em que o Pedro se foi embora, como nos eventos marcantes dos últimos tempos, foram muitas as caras conhecidas, companheiras de aventuras que encontrámos, como se estivéssemos à porta de um momento bonito curado pelo Pedro e que nos traz fermento em bom.
Obrigada Pedro, porque até no dia da tua partida nos juntaste todos, e merecidamente, para te honrar.
Esperamos cuidar e fazer crescer o legado que nos deixaste…E lembrar-te-emos a fazer das artes casas para o encontro e para por os dedos todos nas crostas da ferida…
“Matei-o porque era um idiota, pensava mal de tudo, era estúpido, teimoso, ignorante, atrasado mental, hipócrita, fútil e imbecil, palhaço e jesuíta, à escolha. Uma destas coisas é certa, duas não." Max Aub, via Pedro Oliveira.
Muito obrigada Pedro! Um abraço até à eternidade! Uma ode a ti, Pedro!