Opinião

Pequenas coisas grandes

13 mar 2026 11:29

Convenhamos que, de facto, a médica a mascar e eu a utilizar calão mostrámos ter falhas na nossa civilidade

Há dias, uns pais deram-me conta do desconforto que sentiram ao serem atendidos num hospital pediátrico por uma médica a mascar pastilha elástica durante a consulta que fez à sua filha. E, por causa disto, eu recordei-me da minha prima Amélia, uma prima coirmã do meu pai, que enquanto cresci me habituei a ver como visita regular lá de casa.  

Ora, esta prima, de quem todos gostávamos muito, tinha uma particularidade: era, quer fisicamente, quer no temperamento que exibia, muito parecida com a sionista Golda Maier! Ainda por cima, tal como essa nossa prima que nos acolhia sempre com o sorriso, nos  jornais, principalmente no “Século” que era o jornal diário que se lia lá em casa, nas fotografias publicadas, também Golda Maier aparecia sempre a sorrir.

Sem me aperceber fui colando a esta mãe do Estado de Israel características da nossa querida prima e passei a considerá-la como uma mulher bem formada, de convicções fortes, mas incapaz de fazer mal a uma mosca e afinal, ela não era assim! Por outro lado, a recordação desta prima, não se ficou por aí! Fez-me reviver também a vergonha que senti quando, já aluna universitária, num período de férias passado na casa dos pais  utilizei numa conversa com ela a palavra “chatice”, um termo que na década de 70 era considerado calão.

A pensar nos porquês desta relação que estabeleci, entre a médica mastigadora de pastilha elástica e a prima Amélia, encontrei no conceito de civilidade a resposta. Sim, civilidade onde cabem as regras e os comportamentos promotores de tratos considerados educados em cada comunidade cultural, essenciais para que cada um  sinta que está a ser, em qualquer situação formal, considerado e por isso respeitado pelo seu interlocutor.

Convenhamos que, de facto, a médica a mascar e eu a utilizar calão mostrámos ter falhas na nossa civilidade. Ora, como o incumprimento das normas sociais não tem como consequência uma sanção a não ser a vergonha de quem não cumpre e um possível desprezo dirigido ao prevaricador por parte do observador eu, pela minha parte, desde essa altura, decidi abolir do meu vocabulário o verbo chatear!

Quanto à médica, não sei! Temo que talvez ela não se aperceba de que muitas das crianças que atende possam vir a colar esse seu feio mascar pastilha durante uma consulta a algumas das suas colegas médicas e por isso as passem a olhar com desprezo ou então, não! Talvez prefiram, fazer renascer o Código Hamurabi (1792-1750 a.C.) e passem a aplicar a Lei de Talião e assim, “olho por olho, dente por dente” se ponham, nas consultas, também elas a mascar pastilha elástica. Enfim, são só pequenas coisas grandes!