Opinião

Respigo

25 abr 2019 00:00

Nunca mais ousei, em público ou em privado, entoar fosse o que fosse que se assemelhasse a uma canção.

Não podia ter começado pior a minha relação com aquele professor. Creio que foi logo na primeira aula que ele se apercebeu da minha completa inaptidão, para as matéria que lhe incumbia leccionar, e decidiu logo ali torná-la irremediável.

Sem piedade, ordenou que me retirasse, oferecendo-se uma dispensa “ad aeternum” da frequência da sua disciplina. Falo do padre Renato, professor de Canto Coral. Cumpri o humilhante degredo até hoje.

Nunca mais ousei, em público ou em privado, entoar fosse o que fosse que se assemelhasse a uma canção.

Mas o padre Renato, figura imponente e desconcertante aos olhos de um pré-adolescente, diariamente transplantado do mundo rural para a cidade, deve ter-se apercebido do impacto devastador da sua decisão.

Era um homem de reacções bruscas, que detestava ser interrompido ou perturbado nos seus momentos de concentração máxima – como a regência de um coro –, e que podia oscilar em poucos minutos (como pude testemunhar, bem mais tarde, quando foi meu professor de latim) entre uma crispação iracunda e o mais ingénuo e delicioso gesto de ternura e cavalheirismo.

De modo que, uma semana após o incidente — que me conduziu a um ininterrupto mutismo canoro — à saída do colégio, a meio da tarde daquele mês de Outubro, tinha o padre Renato à minha espera.

De pé, ao lado da lambreta onde se deslocava nas seus diligências paroquiais, com o capacete em cima do assento. – Estava aqui a pensar que lá no Carvalhal Benfeito, donde tu vens, há um belo respigo à nossa espera. Senta-te aí atrás. 

Olhei-o, estupefacto. Não tant

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