Opinião

Saber Abril

29 abr 2021 15:55

E a Liberdade trouxe a Democracia, que é a única forma de não vermos a primeira transformada em tiranias

E o domingo encheu-se outra vez de músicas e cravos, de imagens de arquivo e relatos em primeira pessoa, de memórias de festa e emoções, a lembrar o dia acontecido há 47 anos.

Um dia inesquecível porque de grande mudança para uma larga maioria que olhava agora de frente a possibilidade, finalmente alcançada, de uma outra forma de poder estar na vida: pensar e poder dizer alto o que se pensa; escolher, e poder fazer, e ter o que se escolhe.

Lembro-me da festa e do entusiasmo, contagiantes, mesmo para os mais pequenos; da expectativa, do alívio, e da alegria dos adultos; e da seriedade das conversas, e das projecções de futuro, por parte dos mais envolvidos.

E lembro-me de uma extraordinária sensação de tudo ser possível, nesse e em muitos outros dias que a esse se seguiram, mesmo que não entendesse bem porquê, criada pela junção da ânsia de liberdade adolescente com essa outra Liberdade maior que todos queriam.

Começou nesse dia 25 a nossa experiência comum da liberdade de pensamento, de escolha, e de acção, que foi crescendo e permitindo todo um outro tipo de liberdades que lhe sucederam, completando-a, e permitindo-lhe continuamente crescer, ainda hoje, porque tudo o que é importante cresce devagar, com avanços e dúvidas, conquistas e incertezas, só assim se tornando sólido, enraizado, duradouro, e passível de ser tido como exemplo.

E a Liberdade trouxe a Democracia, que é a única forma de não vermos a primeira transformada em tiranias quando usada de modo a não atentar na existência e nos direitos do outro, coisa que pode parecer pouca mas não é, já que muitos confundirão sempre a sua liberdade com a sua vontade, e o direito de a porem em prática, custe o que custar.

47 anos passados após esse primeiro dia 25, talvez mais de metade da população actual já não o tenha vivido e dele apenas saiba do modo como se sabe a História, pese embora a importância especial de a conhecer através da narração empenhada de quem a viveu.

Há que pensarmos que os mais jovens não conhecem na pele a diferença entre o antes e o depois, que não poderão nunca sentir o entusiasmo e a emoção que sentem os pais e os avós, e que não basta incluí-los na paixão da narrativa e das lembranças para garantir que comungam do mesmo entusiasmo por  Abril.

O belíssimo dia inicial inteiro e limpo na madrugada de Sophia de Mello Breyner não lhes aconteceu, e não podemos querer que o sintam, mas devemos fazê-los compreender que livres habitamos a substância do tempo e que é um dever comum preservá-lo.

De nada servem os cravos e as canções se não aprenderem a importância de incluir, em vez de apenas tolerar.

De nada serve saberem da falta de liberdade de expressão se não lhes proporcionarmos o exercício da criatividade individual e colectiva.

De nada serve explicar a prepotência contra a qual se lutou se não lhes soubermos mostrar o respeito pelas diferenças e as aprendizagens que delas sempre virão.

De nada servirá saberem do final ansiado de uma guerra se não aprenderem a importância de sentar a ouvir o outro, porque o outro sabe o que não sabemos, e daí poderá nascer muita luz.

Viver Abril será preservar o legado, nos tempos de hoje, aqui e agora.

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