Opinião
Sara Serpa: estrela maior do jazz nacional estreia-se ao vivo em São Pedro de Moel
A primeira portuguesa a atuar na mítica sala nova-iorquina do Village Vanguard. O seu primeiro grande reconhecimento crítico deu-se quando a Down Beat a elegeu como Rising Star-Female Vocalist, em 2019
Num mês em que a respeitada revista norte-americana Down Beat divulgou a sua sempre almejada Critics Poll e os seus reverenciados críticos da universalidade jazz a voltaram a qualificar entre as 5 melhores vocalistas do ano, a cantora, pianista e compositora portuguesa Sara Serpa será a maior estrela em palco na edição deste ano do Festival de Jazz da Marinha Grande, num concerto que decorrerá nesta sexta-feira, 24 de Julho, no palco da Praça Afonso Lopes Vieira, em S. Pedro de Moel, arriscando-se a ficar histórico e memorável.
Sara Serpa nasceu em Lisboa, tendo aos 7 anos começado a aprender piano na Academia dos Amadores de Música, de onde transitou para o Conservatório Nacional de Lisboa, onde além de piano estudou também canto. Estudou também pintura na Faculdade de Belas Artes de Lisboa e psicologia, no ISPA, aí se licenciando em Inserção e Reabilitação Social. Inscreveu-se seguidamente no Hot Clube de Portugal, onde começou a usar a voz como instrumento e a improvisar, delineando assim o seu futuro na área do jazz.
Em 2005, foi estudar no Berklee College of Music, em Boston, tendo-se três anos depois mudado para Nova Iorque, onde passou a residir, tendo estudado com mestres norte-americanos do ensino musical como Ed Tomassi, Dave Santoro, Dominique Eade e Mili Bermejo. Iniciada a sua carreira no mundo do jazz, colaborou com artistas da relevante nomeada de Greg Osby, Danilo Pérez, Ran Blake e John Zorn, tendo sido a primeira portuguesa a atuar na mítica sala nova-iorquina do Village Vanguard. O seu primeiro grande reconhecimento crítico deu-se quando a Down Beat a elegeu como Rising Star-Female Vocalist, em 2019, notabilizando-a pela sua abordagem instrumental única ao estilo vocal, particularizada pelo seu característico canto sem palavras.
Em 2005 editou o seu primeiro disco, Sara Serpa Quintet, ainda integralmente acompanhada por músicos portugueses, a ele se sucedendo Praia, em 2008, já sob o selo da Inner Circle Music, editora discográfica independente nova-iorquina de jazz progressivo fundada em 2007 pelo saxofonista Greg Osby, num disco em que o único músico português convidado era o guitarrista André Matos, seu marido, parceiro vivencial e cúmplice artístico de sempre, num álbum em que Greg Osby também participa como músico convidado. A ligação à Inner Circle Music cimentar-se-ia com um novo disco em 2014, Primavera, em parceria com o indissociável André Matos e contando novamente com Greg Osby entre os músicos convidados, tendo recebido merecidos elogios da experimentada e conhecedora crítica norte-americana. Esse sucesso inspiraria um novo álbum da inseparável dupla criativa em 2016, o também bem-sucedido All the Dreams, com o duo a dividir-se por variada instrumentação acústica e eletrónica, usando mesmo o próprio estúdio como um instrumento musical.
Em 2020, Sara Serpa surpreende definitivamente através de um novo álbum, Recognition: Music For A Silent Film, um disco que é também um filme, dirigido por Sara Serpa em colaboração com Bruno Soares, sendo um documentário interdisciplinar que mescla imagens cinematográficas com música, utilizando filmes de arquivo da família Serpa, filmados durante a década de 1960 na Angola então colonizada por Portugal. A sua peculiar banda sonora utiliza textos de Amílcar Cabral, Luandino Vieira e da historiadora Linda Heywood, envolvidos numa sonoridade jazzística em que as vocalizações de Sara Serpa se potenciam na linguagem jazz de convidados de luxo como a harpista Zeena Parkins, o saxofonista Mark Turner e o pianista David Virelles (piano).
A voz de África voltaria a marcar a discografia de Sara Serpa em 2021, num Intimate Strangers que se acentua numa sua colaboração criativa com o escritor nigeriano Emmanuel Iduma, inspirada no seu livro A Stranger’s Pose, num disco que nos revela uma singular mistura singular entre relato de viagem, reflexões e poesia, trazendo para junto de Sara Serpa a colaboração de músicos como o pianista Matt Mitchell. Este notável Intimate Strangers foi distinguido pelo categorizado jornal The New York Times como um dos 10 melhores discos de jazz do ano em 2021, distinção nunca antes pensada nem posteriormente repetida por nenhum músico português.
O mais recente disco editado por Sara Serpa assinala o regresso de André Matos às suas produções discográficas, tendo sido colocado no mercado em 2023, sob o título Night Birds, consagrando-os como uma dupla de singular pendor criativo, num álbum em que beleza e obscuridade contrastam sonoramente numa ambiência hipnotizante e textural, numa inspirada e inspiradora reflexão musical sobre a vertiginosa sociedade do mundo moderno e a deterioração que o usufruto provoca nos ecossistemas naturais. Este álbum será provavelmente central no concerto com que o criativo e sempre inspirado casal que são Sara Serpa e André Matos nos brindarão em S. Pedro de Moel, assumindo o raro privilégio de ter em palco uma das figuras do jazz nacional mais reconhecida no estrangeiro, raridade que poucos por cá partilham numa mão em cujos 5 dedos apenas cabem Sara Serpa, Carlos Bica, Carlos Zíngaro, Rodrigo Amado e mais recentemente o acordeonista João Barradas, também este ano cotado na Critics Poll da Down Beat, na sempre motivadora Rising Star Beyond Instrumentalist of the Year.
O XII Festival de Jazz da Marinha Grande espera por nós, a partir das 22 horas desta sexta-feira, na distintiva Praça Afonso Lopes Vieira da sempre poética Pérola do Litoral. É de ir!