Opinião
Trocado por miúdos | A razão mora onde?
Esta crise não é só dos jovens que não saem de casa dos pais: é dos idosos despejados, dos pais que não conseguem pôr o filho a estudar e dos imigrantes que trabalham tanto quanto podem e vivem como ratos. Se estamos todos no mesmo barco, então só resolvemos o problema remando na mesma direção
As recentes manifestações e reivindicações pela habitação que temos visto no nosso país serão algo que vai definir a política portuguesa nos próximos anos e a forma como a população se organiza e pensa.
Inspirados por Maricarmen e pelos estudantes franceses, os portugueses têm saído à rua para defender a habitação para todos de forma digna. Esta frase tem de ser abordada com muito cuidado, porque os nossos atos têm consequências e, principalmente, muitas interpretações. Estamos a viver num mundo polarizado em que cada um tem uma ideia e se encosta a um canto. Pode não ser verdade, pode ser errado, mas não existe espaço para diálogo, e as alcunhas “facho” e “esquerdalha” acabam logo com a possibilidade de um entendimento (entendimento esse que está na base de uma sociedade democrática).
Por um lado, não consigo perceber quem transforma a manifestação numa expressão da sua raiva. As drogas, a criminalidade e o vandalismo retiram nobreza à causa e são usados contra os manifestantes, tirando o foco à temática principal. Por outro lado, os partidos dividem-se cada vez mais, atirando culpas e demonizando o comportamento de quem sai e de quem não sai à rua. Um direito não anula um dever, e o artigo 65.º da Constituição não anula a nossa obrigação de preservar o património e de respeitar a integridade do próximo. Sinceramente, estamos todos mal e todos certos.
A manifestação deve acontecer pelo tempo em que fizer sentido. Não é menos nobre se não for radical, e a resposta não vem mais cedo por vir acompanhada de latas de tinta ou de ofensas desmedidas. Não quero ver o nosso país a ir pela mesma espiral do resto da Europa, esta é a hora de usarmos o nosso estatuto de ponderados e decidirmos o futuro sem pôr em causa as instituições.
Duvido que toda a gente que já esteve no Rossio ou que já partilhou a sua super opinião através de um story à pressa saiba que, em 2008, se construíram quase 60 000 casas em Portugal e que, em 2024, não chegaram a 25 000. As soluções são mais relevantes neste momento do que fazer de um primeiro-ministro o inimigo da nação.
Mas, se fizerem questão de ir buscar o passado, façam-no de forma íntegra e lembrem-se de que as mesmas forças que governaram nos anos que nos trouxeram a esta crise são as mesmas que, milagrosamente, têm todas as soluções no último ano como oposição.
A construção tem de ser apoiada como nunca foi, as câmaras não podem atrasar projetos por anos, os imóveis do Estado têm de servir o povo e não a paisagem degradada, a especulação imobiliária não pode ser um emprego e a verdade é que não podemos receber mais pessoas sem ter onde as colocar.
Esta crise não é só dos jovens que não saem de casa dos pais: é dos idosos despejados, dos pais que não conseguem pôr o filho a estudar e dos imigrantes que trabalham tanto quanto podem e vivem como ratos. Se estamos todos no mesmo barco, então só resolvemos o problema remando na mesma direção.
Além disso, que a polícia não se coloque contra o povo, nem o povo contra a polícia. A violência policial, caso escale, vai ser o combustível para uma revolta muito maior, abrir portas à terra de ninguém e ser o colapso da nossa democracia.
Dito isto, não sei o que pensar da violência policial na madrugada de 25 de outubro. Não consigo deixar de pensar que o próprio 25 de abril foi uma violação da lei da altura. Estou neste dilema constante porque tenho medo de me tornar muito política e de me esquecer das pessoas. Tenho medo de justificar bastonadas e de defender a força bruta tal como Estado Novo.
Eu estarei aqui a tentar perceber como é que chegámos a este ponto e como podemos sair dele, a ajudar o próximo, se me for possível, e sem vestir o crachá de nenhum partido, porque isso não põe um teto na cabeça de ninguém.