Opinião

Trocado por miúdos | #corpoverão2057

14 out 2026 09:21

Serão as capas de revista e os stories no Instagram o meu “Deus, Pátria e Família”? Será esta a nova ideologia descabida que me coloca mais longe de mim? Será mesmo o corpo um templo?

O que terá sido mais difícil, acabar com a ditadura ou alcançar o tão esperado corpo de verão? Coloco tal questão pois o peso da pressão de estar com o corpo à altura da praia magoou-me mais as costas do que ir votar. As semelhanças são mais que evidentes. Em ambos os casos estaria preso a algo que não tem um final visível no horizonte.

Serão as capas de revista e os stories no Instagram o meu “Deus, Pátria e Família”? Será esta a nova ideologia descabida que me coloca mais longe de mim? Será mesmo o corpo um templo? No sentido em que devemos rezar a ele todos os dias, nunca pecando para alcançar uma santidade física depois da morte. E a mente, no que se tornará com tanta castidade e restrição? Provavelmente num snack-bar, daqueles que existem no interior do país, onde apenas servem torradas cheias de manteiga e café com cheirinho. Um estabelecimento cinzento que na parede segura quadros que retratam os bons velhos tempos em que tudo era mais belo e que os tempos de agora nunca conseguirão almejar.

Não poderá o corpo ser uma música? Daquelas que te lembras perfeitamente quando ouviste pela primeira vez e que te fizeram gastar o dinheiro que não tinhas para a ir ouvir ao vivo. Se o nosso corpo fosse tratado como tal não duraríamos apenas uma vida. Carregaríamos memórias que floresceriam com o decorrer da melodia e que ninguém conseguiria apagar. Estaríamos constantemente a flutuar por um oceano fora, nunca indo ao fundo, pois nem todas as partes de uma música são para dançar.

É como se criasses um compromisso contigo, a banda nunca pode parar de tocar. Difere-se da santidade que pressiona o meu corpo, pois se me proibir de escutar a música que quer entrar pelos meus ouvidos, ficarei tão surdo como se a ouvisse constantemente em altos berros.

Estamos perante a ditadura do século XXI, o corpo ideal que todos nós desejamos. O espelho acaba por se tornar nosso confidente. Escondemo-nos por de trás de alteres e passadeiras, a fugir do pensamento que se torna preguiçoso pois não rende os likes que uns abdominais iriam dar. Perde valor o que não tiver massa muscular e no verão quando acabarmos por tirar a camisola, todos orgulhosos, teremos de encasacar a cabeça pois qualquer sopro vindo da boca de alguém trará um constipação que nos deixará doentes em plena altura de brilhar.

Pelas minhas contas, quando finalmente chegar ao tão esforçado corpo de verão, estarei como as revistas pelas quais me guiei, secas e enrugadas de tanto anos expostas naquele snack-bar.