Entrevista
Adélio Amaro: “Portugal vive onde vivem os portugueses”
11 jun 2026 09:00
O presidente do Cepae – Centro de Património da Alta Estremadura, dirige um jornal na Suíça, está a construir com as próprias mãos uma biblioteca rural com 25 mil volumes, que será, além da obra literária, o seu legado. Faz um diagnóstico claro: a Alta Estremadura está a desaparecer. E Leiria ainda não sabe quem é
Foi reeleito presidente do Centro de Património da Estremadura. O que falta fazer para que esta região seja reconhecida dentro e fora de Portugal?
Não sei se vamos a tempo de ver a região Alta Estremadura ser reconhecida. É um conceito que surgiu nos anos 70, embora já o Alexandre Herculano tivesse falado na "Estremadura alta", e nasce, de certa forma, para agregar Fátima, impulsionado por figuras da época, onde o folclore aparecia como símbolo identitário. Nos anos 80 e 90, surge a tentativa de pôr a Alta Estremadura no mapa. Nasceram a ADAE - Associação de Desenvolvimento da Alta Estremadura, nasce o CEPAE - Centro de Património da Alta Estremadura, a AFRLAE, Associação Folclórica da Região de Leiria e Alta Estremadura... Como região oficial nunca existiu, nem existe. Fizeram-se congressos para vincar a questão, mas com o tempo, a Alta Estremadura começou a diluir. O CEPAE passou a Centro de Património da Estremadura e começaram a aparecer outras divisões, com a da região de turismo. Com a Comunidade Intermunicipal da Região de Leiria (CIMRL), que ofusca a ADAE, e o resto, fez com que a ideia de criar a região não oficial da Alta Estremadura se diluísse. Vivemos, actualmente, uma forma indecisa de nos identificarmos. Quando se fala tanto da união das identidades, estamos sempre a dividir. A Alta Estremadura está a desaparecer. Deixou uma marca, mas não perdurará. Nem a área geográfica está definida. Com estas divisões, até o governador civil que representava o Governo no Distrito de Leiria desapareceu. Anulou-se o Governo Civil e o Distrito de Leiria passou a ser quase nada.
Escritor, etnógrafo, jornalista, director de publicações da diáspora, presidente de uma associação de património, doutorando. Como é que essas vidas cabem todas dentro de uma só?
Trabalho sete dias por semana. Fui jornalista n'O Mensageiro, depois do Notícias de Leiria, fundei uma editora e decidi trabalhar para mim próprio. Depois de 13 anos vendi a editora, sem estar à espera, e vi a oportunidade para os meus projectos. Tive propostas de trabalho, mas não aceitei, porque queria estar com as asas livres. A família, às vezes, é prejudicada, embora pense que já se habituaram. Nalgumas deslocações, tento levá-los, para haver um acompanhamento mais próximo. Gosto de tudo o que faço, com muito sacrifício físico, mas não psíquico.
Não consigo explicar como as coisas vão surgindo. O meu doutoramento surgiu da insistência dos actuais orientadores. Ajudou ser numa zona de que gosto, a Universidade dos Açores. Tenho lá ligações familiares, na aldeia de Algarvia, na Ilha de São Miguel. Tenho lá a casa que era dos meus avós, até o meu primeiro carro, que comprei aqui e enviei para lá. É um refúgio. Mas se estou muito tempo no refúgio, acaba por ser trabalho. Tenho 10 ou 12 livros publicados nos Açores. Fiz a monografia da Algarvia, que tem 200 habitantes, e já teve cerca de mil. Foram seis anos de trabalho e ofereci o livro à comunidade. O brasão da Algarvia foi feito por mim. Há histórias fantásticas no recente livro que publiquei sobre o acidente aéreo de 1949 que aconteceu na freguesia. Ninguém imagina que o amante da Edith Piaf morreu ali e outras grandes figuras como o braço direito de Walt Disney. No caso do CEPAE ou a BiblioRuralis, que fundei há quatro anos, é trabalho onde gastamos do próprio bolso mas que fazemos pelo gosto. Como o último livro que o CEPAE publicou sobre as cartas entre Afonso Lopes Vieira e Vitorino Nemésio, coordenado pela professora Cristina Nobre. Tenho de ter uma equipa muito sólida para as coisas funcionarem. Até porque tratamos o património dos seis municípios associados, para colaborarmos com todos.
São trabalhos de recolha do património imaterial desses seis municípios?
Sim, com vista à sua preservação. Agora teremos um conjunto de iniciativas, onde vamos envolver os seis. Temos também uma iniciativa recente na área da formação, direccionada para o restauro, conservação e inventariação, para ajudarmos as pessoas que têm pequenas colecções e até profissionais da área. Quando se iniciou o CEPAE, o fim dos municípios era ter uma associação do património que os ajudasse. Não havia nas autarquias antropólogos e arqueólogos, mas, com o tempo, eles foram aparecendo nos quadros dos municípios e o CEPAE teve de optar por outros caminhos e foi assim que fomos para a edição, investigação e vamos colaborando com universidades e politécnicos.
É possível aproveitar o património e as características únicas das populações evitando o turismo de massas?
Essa foi sempre uma das grandes lutas de Leiria: a identidade do ponto de vista turístico. É por isso que tivemos várias regiões de turismo. Primeiro, a Região da Rota do Sol, depois a de Leiria-Fátima, com o fim de atrair o santuário, que é um grande ponto turístico da nossa região e do País. A verdade é que, em Leiria, só nos últimos anos, começou a aparecer uma ideia de turismo. O destino começou a ser procurado e isso deve-se a algum património histórico que temos, mas também ao património industrial e à capacidade de os industriais e dos grandes empresários da região começarem a fazer os seus negócios e contactos no exterior, dizendo "eu sou de Leiria". Depois passa pela acção das agências, dos hotéis, das próprias regiões de turismo, contudo, com o Turismo do Centro, com mais de 100 concelhos, nunca iremos ter uma atenção igual para todos. Há sempre pontos mais turísticos. Entre o Mosteiro da Batalha e o Castelo de Leiria. Onde se aposta mais? Até na Batalha temos um turismo que entra no mosteiro e sai. Os restaurantes, hotéis e comércio não usufruem muito dele. Muita gente vem no próprio dia de Lisboa, passa pela Batalha, passa por Fátima, Alcobaça e volta para Lisboa para pernoitar.
Leiria terá de criar uma imagem de marca que possa atrair o turismo, a tal identidade. Pode ser o Menino do Lapedo ou até o castelo. Temos também o turismo que atrai pelos eventos, como o Entremuralhas. Esta é uma grande batalha e desafio. Não temos sequer muitos hotéis e, se não há oferta para aproveitar, as pessoas também não ficam. Esta identidade não pode ser uma coisa só do município de Leiria. Tem de ser de todos. A identidade tem de ser a Alta Estremadura, mas ela não se afirma como região. E enquanto andarmos com divisões administrativas e associativas, nunca vamos criar identidade. Até a criação da nova universidade, que é de Leiria e Oeste, é mais uma divisão. Nunca aceitamos Leiria como região e os outros concelhos não gostam de se identificar com Leiria. Para que exista futuro no turismo de Leiria, é fundamental que o TGV seja uma realidade, já que perdemos a oportunidade de ter um aeroporto.
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