Entrevista

Filipe de Botton | “Não há história de sucesso sem grandes insucessos”

14 nov 2019 10:00

CEO da Logoplaste entende que a classe empresarial ainda é “pouco forte” e que devia ter posições mais firmes sobre o que se passa no País

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Raquel de Sousa Silva
Raquel de Sousa Silva

O plástico vive novos desafios, relacionados com a reciclagem e sustentabilidade, entre outros. Está a indústria preparada para lhes responder?

Está mais preparada do que o consumidor. É um facto que a indústria não estava a dar a devida atenção ao tema da sustentabilidade. Mas tem feito algo – provavelmente não o suficiente – relativamente a esse assunto. Um tema complicado de pôr na agenda, porque não vendia, porque os meios de comunicação e as redes sociais não pegavam nele. A sociedade de consumo em que vivemos quer sempre melhor, mas por vezes com base em estudos pouco científicos. 'Vamos acabar com os plásticos' é um slogan que pega bem, mas muitas vezes estamos a substituir os plásticos por produtos que, do ponto de vista ambiental, são muito piores, que têm uma carga anti-ambiente muito superior à dos plásticos. Estes acabam por ser penalizados pela sua visibilidade.

O plástico tem estado debaixo de fogo, acusado de ser a causa maior da poluição mundial...

Claro que sabemos que há mais plástico do que peixes no mar, mas quem é que o pôs lá? As garrafas não nasceram nos oceanos. Há todo um trabalho que tem de ser feito através da cadeia de valor. E quando se fala nela vale a pena olhar para dois grandes actores: a indústria, como um todo, e o enquadramento regulatório. Porque este é fundamental. Sem um forte enquadramento regulatório não se conseguirá dar a volta ao tema. A articulação entre o Estado, a União Europeia e a indústria é fundamental. Não nos esqueçamos que quando se fala do lado mais visível do problema da poluição, que são os mares, 80% do que lá vai parar vem de dez rios do sudeste asiático e de África. Estar em África a falar de sustentabilidade a uma pessoa que não tem um dólar por dia para comer... Talvez não seja a sua prioridade. A Europa representa 1% da poluição dos mares. Este é um problema global, que tem a ver com a sociedade em que vivemos. Mas é impossível hoje viver sem plástico. Está estudado que mais de 40% da logística alimentar seria perdida caso se acabasse com o plástico. Passar a acondiconar o leite em garrafas de vidro? Não tenho nada contra este material, que é extraordinário, mas a carga de CO2, quer na produção de uma garrafa de vidro quer no seu transporte, é muito superior ao do plástico. Isto tem de ser tudo avaliado.

Vamos acabar com os plásticos é um slogan que pega bem, mas muitas vezes estamos a substituir os plásticos por produtos que, do ponto de vista ambiental, são muito piores

Em 2021 deixa de ser permitido o uso de alguns produtos plásticos de utilização única. É uma medida acertada?

É uma medida política, que tem muito de reacção de instituições regulamentares face a pressões da opinião pública. E mais uma vez pouco sustentada. Há aqui um problema grave. A indústria não tem resposta para implementar instantaneamente soluções alternativas. Por isso, este tema do single use plastic implica sobretudo que é preciso pensar em algo a médio prazo e não em querer soluções instantâneas, que politicamente são muito interessantes, mas do ponto de vista do ambiente não nos vão levar a lado nenhum.

A reciclagem que temos era adequada há 20 anos, não o é agora?

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