Sociedade

Sensibilizar, incentivar e penalizar para melhorar recolha de resíduos

4 out 2019 00:00

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Raquel de Sousa Silva

Actualmente, Portugal recicla 22,5% do plástico usado, mas as metas impostas pela Comissão Europeia, e aprovadas pelos Estados-membros, prevêem que se passe para mais do dobro em seis anos. Em 2025, a percentagem de reciclagem deverá ser de 50% e em 2030 de 55%. Para as atingir, é preciso “repensar todo o modelo de recolha”, defende Ricardo Pereira.

O administrador da Sirplaste, empresa de Porto de Mós que se dedica à reciclagem de plástico, considera que o actual sistema “está esgotado”, seja por falta de formação e informação dos consumidores, que não depositam os resíduos nos locais certos, seja por falta de resíduos.

“O salto que teremos de dar [nas metas de reciclagem] não será possível sem melhor recolha”, disse o empresário ao JORNAL DE LEIRIA à margem do APIP Plastics Summit, que se realizou na semana passada em Ílhavo.

Mais e melhor recolha foi a ideia defendida, aliás, pela maioria dos intervenientes na mesa redonda sobre reciclagem, um dos vários assuntos em debate no evento, que discutiu alguns dos principais temas da actualidade do sector, como a questão dos plásticos de uso único ou o ciclo de vida do produto.

Carmen Lima lembrou que grande parte dos resíduos ainda é encaminhada para reciclagem de forma indiferenciada, situação que tem de ser alterada. Mas a mudança não será alcançada apenas com sensibilização, apesar de a educação ambiental ser essencial. Será preciso recorrer também à via da penalização, caso os consumidores não adoptem os comportamentos mais correctos.

“Há 20 anos achava que com sensibilização íamos lá. Agora acredito que tem de haver incentivos e penalizações”, defendeu a coordenadora do Centro de Informação de Resíduos da Quercus. Outra das hipóteses é, por exemplo, que as embalagens paguem uma tara, como acontece noutros países, para que o consumidor tenha a preocupação de depois as devolver no local correcto.

“Temos que fazer sentir aos consumidores que a responsabilidade é sua, são uma peça fundamental. São eles que colocam ou não [as embalagens] nos ecopontos”. A responsável lembra que actualmente 83,5% dos resíduos são encaminhados para reciclagem de forma indiferenciada e defende que os ecopontos têm de estar perto das habitações, caso contrário as pessoas não os usam.

No caso das embalagens plásticas, “só 42% delas são encaminhadas para reciclagem”. Carmen Lima entende que continua a haver problemas associados ao plástico porque não implementamos plenamente a política dos três R: reduzir, reutilizar, reciclar.

Também João Letras, director do Departamento de Gestão de Resíduos da Sociedade Ponto Verde, que participou na mesma mesa redonda, entende que é preciso investir na comunicação e sensibilização, para que a separação dos resíduos passe a ser “algo inato e natural”.

Mas reconhece que as políticas públicas também têm de evoluir, para promover mais e melhor reciclagem. “Precisamos de mais recolha porta a porta”, exemplifou. Actualmente, essa percentagem é muito baixa, já que 94% da recolha é feita em ecopontos.

Pelo contrário, há países, como França, em que este é o método de recolha mais usado, com bons resultados. “Se actuarmos em toda a cadeia, será possível aumentar a reciclagem de plástico em Portugal”, entende.

Para que o nosso País consiga cumprir as novas metas de reciclagem, é necessário “aumentar a recolha selectiva, diminuir a produção de resíduos e apostar no ecodesign”, isto é, no desenvolvimento de produtos que incorporem reciclados, defendeu igualmente no debate Pedro Simões.

O gestor de operações da Novo Verde (a mais recente entidade gestora de resíduos) lembrou que os resíduos que chegam à reciclagem por via da recolha indiferenciada implicam maiores custos de tratamento para os operadores e têm menor valor.

Mensagem deixada igualmente por Susana Ferreira, responsável da operação de Gestão de Resíduos do Electrão, que colocou a tónica no aumento da qualidade do produto reciclado. “Temos de ter uma recolha cada vez mais selectiva de resíduos cada vez mais limpos, que permitam reciclar com mais qualidade”.

Outro desafio, adiantou, “é aumentar a quantidade de plástico reciclado que pode ser incorporado” nos produtos. A responsável defendeu ainda a criação de medidas fiscais que incentivem a separação correcta dos resíduos.

Muitos dos resíduos iam, até há poucos anos, para a China, onde eram reciclados a preços com os quais os recicladores portugueses tinham dificuldade em competir, já que tal era feito “com quase nenhumas responsabilidades ambientais e sociais”, aponta Ricardo Pereira.

Devido à pressão internacional a que foi sujeita para que isto mudasse, a China praticamente fechou as portas à importação de resíduos o que fez com que estes passassem a ficar na Europa.

“O que antes limitava o crescimento das empresas, que era a escassez de matéria-prima a preços que pudessemos suportar, deixou de se verificar”, explana o empresário. Por isso, nos últimos três anos, surgiram novas empresas de reciclagem em Portugal e as existentes aumentaram a capacidade.

Agora, é preciso fomentar a recolha selectiva, para que o material tenha qualidade quando chega às recicladoras e, “mais importante ainda, fomentar novas aplicações” para o plástico reciclado.

“É preciso que a indústria se mentalize, de uma vez por todas, que tem de começar a incorporar reciclados e a desenvolver novos produtos com eles”, defende Ricardo Pereira, que diz ainda que os fabricantes de equipamentos têm igualmente de se ajustar a este novo paradigma.

Durante o evento organizado pela Associação Portuguesa da Indústria de Plásticos, que durante dois dias reuniu em Ílhavo diversos agentes ligados ao sector, foi assinado o Pacto Nacional da Indústria dos Plásticos para a Economia Circular e Sustentabilidade.

Trata-se de um conjunto de “medidas concretas que os empresários e a indústria se comprometem em implementar, com o seu contributo para um ambiente e um negócios mais sustentáveis, para que possamos assegurar o futuro das nossas empresas e os postos de trabalho a elas associados”, explicou na ocasião Amaro Reis, presidente da APIP.

Este pacto assenta em várias linhas estratégicas. Uma delas é o Programa OCS, que pretende que os empresários se comprometam a adoptar medidas para evitar a perda de matérias-primas (as vulgarmente designadas bolinhas de plástico), que acabam nas linhas de água e depois nos rios e oceanos.

Outra é o Programa More, com o objectivo de sistematizar dados estatísticos sobre os plásticos. “A nossa indústria necessita de comunicar, existe uma sede muito grande de informação. Olhamos muito para dentro, temos de olhar mais para fora”, defendeu o dirigente.

A criação de um observatório de reciclagem de plásticos, o desenvolvimento de projectos específicos, com uma forte componente de investigação e desenvolvimento, e a participação em grupos de trabalho sobre a indústria são outras das medidas.

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