Entrevista

“Na altura ia para Medicina qualquer um”

10 set 2020 12:32

Bilhota Xavier seguiu Pediatria por se ter apaixonado pelo serviço de Coimbra, voltado para o século XXI

Bilhota Xavier é pediatra há mais de 30 anos
Ricardo Graça

Ler aqui a primeira parte da entrevista

É natural da Guarda, como foi crescer lá?
Vivi lá até aos 17 anos. Criei o Núcleo Filatélico da Guarda e, com 16 anos, organizámos a primeira exposição Filatélica Internacional do país. Fomos para Salamanca, com o carro do cônsul. Pertenci à comissão nacional de estudantes no antigo 7.º ano. Com 12 ou 13 anos, criámos a Associação Académica da Guarda. Fui presidente da JEC - Juventude Escolar Católica. Depois afastei-me da religião. Acho que foi uma evolução da minha parte. Fiz a profissão de fé e até ajudei na missa. Tenho uma família católica, mas fui-me afastando. O Deus ou os deuses, foi criado pelas pessoas, é uma forma de pensar que tem séculos, mas não ultrapassa aquilo que foi criado pelos homens. Foi para medicina por pressão da família? Na altura ia para Medicina qualquer um. Poucos tiravam aquilo a que agora se chama o ensino secundário. Na região da Guarda só havia uma escola que dava acesso ao secundário. Tive muitos amigos que saíram de casa com 9/10 anos para ir estudar e só iam a casa nas férias. Também havia muita emigração e esses, sim, tinham um objectivo: ter um filho doutor. Os colegas da minha turma formaram-se todos. Para entrar em Medicina faziase a aptidão. Era uma pró-forma. Desde os quatro anos que meti na cabeça que ia ser médico.

Era bom aluno?
Nunca fui de mais nem de menos. Fui sempre sobrevivendo. Tirava as minhas notinhas e nunca reprovei nenhum ano. Só comecei a gostar de estudar quando fui para a faculdade. Até aí cumpria os objectivos e pouco mais. A inteligência é muito importante, mas mais importante é o carácter, a integridade e a humildade. Os grandes são humildes.

Pediatria porquê?
Poderia ter escolhido a especialidade que quisesse. Na altura trabalhei muito tempo com doentes terminais e eu e os meus colegas organizámos a área da hemodiálise do hospital dos Covões. O director queria que eu fosse para nefrologia, a minha mãe queria que eu fosse para cardiologia. Fui para pediatria porque era um jovem da revolução do 25 de Abril, romântico. Dos serviços por onde passei o que mais me marcou foi o velho hospital pediátrico, porque funcionava como um hospital do século XXI. Tinha uma metodologia de formação, de discussão, de revisão de casos de trabalho em equipa. Era um hospital do outro mundo e criou uma escola. Quando se discutem casos que não correram bem não é para procurar quem falhou. As falhas em saúde são do sistema. O principal objectivo é identificar os factores que contribuíram para essa falha para que tentemos que não se voltem a repetir.

Trabalhava 12 horas por dia, vai conseguir desacelerar?

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