Sociedade
Bibliotecas escolares levam literacia às crianças nas zonas mais rurais
Para quem vive numa cidade, uma biblioteca pode ser dada como garantida, contudo, em locais mais periféricos, requisitar um livro não é uma tarefa fácil. As bibliotecas escolares permitiram aproximar os livros da comunidade
É um exemplo a nível europeu e permite aproximar os mais novos dos livros, principalmente aqueles que vivem em zonas afastadas das grandes cidades. As bibliotecas escolares são o ponto de encontro entre as crianças e a leitura, integradas numa rede nacional que, segundo Isabel Simões, é algo “único na Europa”.
“Pela necessidade e pela pertinência que se vê, a rede de bibliotecas escolares, com a orgânica que temos, é um exemplo em termos europeus. Não quer dizer que não haja bibliotecas escolares nos outros países, mas, enquanto rede e de forma tão estruturada, somos um exemplo”, afirma a professora bibliotecária da biblioteca escolar do Centro Escolar de Vieirinhos, inserida no Agrupamento de Escolas da Guia (concelho de Pombal).
Esta é a biblioteca mais afastada da sede do concelho e há mais de 20 anos que foi entendida a necessidade de angariar e disponibilizar livros para as crianças destes locais, muitos antes de surgir a Rede de Bibliotecas Escolares (RBE) a nível nacional.
A professora bibliotecária explica que, para os alunos da pré e 1.º ciclo, as visitas à biblioteca municipal eram raras. “Estes meninos iam uma vez por ano à municipal, quando era a Feira do Livro.
Alegria de ir à biblioteca dos grandes
A autarquia levava-os nos autocarros para terem contacto com a feira e, depois, vão também alguns meninos por ano, no âmbito do concurso de leitura. Não podem ir todos, mas é sempre um momento de alegria vê-los numa biblioteca dos grandes, de uma cidade, porque eles não têm esse acesso”, refere.
Isabel Simões acredita que “faz alguma diferença” a existência destas pequenas bibliotecas nos meios escolares. As crianças “ainda gostam muito de manusear o livro” e “todas as semanas requisitam livros”.
A educadora dinamiza, todas as terças-feiras, um momento onde faz a leitura de uma história às turmas desde centro escolar. “É uma alegria vê-los aqui. Quando chego, perguntam-me logo: que história vais contar? Eles gostam muito do livro, da história que conta”.
Além do contacto com a literatura infantil, também os professores podem usufruir das condições do espaço. “Se estão a dar estudo do meio, por exemplo, podem vir aqui e dão uma aula diferente, ou usam os recursos da biblioteca, ou vêm aqui buscar os livros e levam para a sala de aula. Mas, gostamos mais quando estão no espaço biblioteca”, reflecte.
Com um acervo de mais de 2.300 livros, esta biblioteca aceita doações e realiza sempre uma triagem para garantir que chegam às mãos dos meninos livros actualizados e ainda em condições de serem manuseados. No caso da escola de Vieirinhos, na freguesia do Carriço, a biblioteca é exclusivamente direccionada aos mais novos, até porque está inserida no centro escolar, mas os pais também podem requisitar livros, bastando apenas terem o número de leitor.
Biblioteca para imigrantes aprenderem português
Apesar de não disponibilizarem livros para adultos, Isabel Simões recorda um episódio onde a biblioteca fez a diferença na integração de imigrantes, no seguimento da apresentação do espaço aos pais.
“Tivemos pais que requisitaram muito e achei curioso, porque levavam até em nome dos filhos. Eles não tinham número de leitor, e perguntei: é esse livro que querem levar? Responderam: sim, porque andamos a aprender o português. Aquilo quase que me fez arrepiar porque achei tão genuíno o interesse deles e, ao verem que eram livros com os quais os filhos andavam a aprender, eles também quiseram levar”, relata.
Apesar de se localizarem geograficamente afastados do centro de Pombal, Isabel Simões garante que toda a zona oeste do concelho “está coberta com bibliotecas, o que é imprescindível para as crianças, sobretudo para as que não têm acesso a uma municipal facilmente”, assume.
Abertura à comunidade
Também a Escola Básica de Monte Real, no concelho de Leiria, beneficia da proximidade que esta biblioteca fornece às crianças. Neste caso, a biblioteca surgiu por iniciativa da associação de pais, que quis realizar uma campanha para a recolha de livros e, após várias iniciativas, o espaço começou a ser pequeno para a oferta já detida.
“Nasce a ideia de converter este espaço em biblioteca e a associação de pais envolveu-se no projecto e submeteu-o ao orçamento participativo. Foi uma proposta vencedora”, resume.
Integrada na RBE em 2025, os dinamizadores do espaço sempre quiseram que a biblioteca não fosse apenas dirigida às crianças, mas também aberta à comunidade de Monte Real e Carvide.
Durante o período escolar, as crianças do Agrupamento de Escolas Rainha Santa Isabel, da Carreira, podem sempre usufruir da oferta literária e, ao sábado à tarde, um grupo de voluntários permite que as portas estejam abertas à freguesia.
Assim, abre-se uma janela de oportunidade para outro tipo de iniciativas que, até, envolvem gerações. “Vamos repetir o Entre Sons, com o objectivo de articular as gerações, a escola e a comunidade. Trazemos uma banda de garagem, de alunos do agrupamento, e uma banda local, a Pinhal Del-Rey, de música tradicional, e funciona muito bem (…). É como um café concerto. Temos vários momentos em que tanto a música mais nova como a música mais tradicional traz temas que desafia o outro a acompanhar com ritmo. Dá uma dinâmica muito interessante, correu muito bem no ano passado e este ano vamos repetir”, adianta.
Além do evento musical, também a poesia toma conta do espaço. “No Versos e Aromas, vamos buscar os meninos do agrupamento para um sarau de poesia. Declamam poesia em forma de jogral, em coro, tivemos poesias inéditas deles, professores também a declamar, e elementos da comunidade”, acrescenta Noélia Pedrosa.
Quatro mil livros
Este ano, conseguiram abrir o clube de leitura, que reúne na biblioteca uma vez por semana. “É um momento muito agradável, também com o apoio de voluntários. Temos uma senhora que gosta muito de ler e faz aqui um trabalho fantástico com os livros. Já tivemos também a tarde dos jogos, num sábado”, conta.
A professora bibliotecária enaltece também a parceria com a Pró-Real – Associação para o Desenvolvimento da Freguesia de Monte Real. “Uma vez por mês, recebemos os idosos do lar. Eles têm os seus cartões de leitura. A idade uma faixa muito esquecida no País e os idosos precisam de ocupação e de estímulo cognitivo e mental”, defende.
“Com aquele conjunto de utentes que ainda está activo e ainda tem esta capacidade para ler, veem cá uma vez por mês, trazem o cestinho deles, entregam os livros, levam novos, falam… também é, mais ou menos, um clube de leitura, mais virado para esta geração mais velha. Eles trazem sempre histórias de vida para contar, gostam de conversar com base nos livros e sabem muito bem o que querem ler”, frisa.
Para Noélia Pedrosa, todas estas iniciativas cumprem o objectivo de “conseguir alcançar cada vez mais um maior número de pessoas, que não venham só aqui autonomamente, mas com eventos ou tertúlias”.
Esta biblioteca escolar oferece quase quatro mil livros, para todas as idades, e, em breve, com a parceria da Junta de Freguesia, surgirão mais oportunidades para receber jovens e estudantes.
“Há ideias para começar a caminhar no sentido de envolver os jovens, de tornar este espaço num local onde seja possível estudarem e fazerem cowork alguns dias da semana.
Jornais para todos
A Junta de Freguesia também vai disponibilizar jornais, que são sempre muito procurados pelas pessoas. Então, vamos procurar alargar o período de abertura à comunidade com várias dessas valências”, assume, uma vez que a biblioteca já está equipada com computadores e acesso à internet.
Há cerca de dois anos à frente desta biblioteca, a responsável nota um aumento de leitores, principalmente entre os jovens. “Houve ali um período de tempo em que os jovens não liam muito, ou seja, afastaram-se do livro. E, neste momento, estamos a notar que eles estão a regressar. Os livros são muito caros e o facto de haver livros nas bibliotecas, de existir esta disponibilidade, é enriquecedor ao nível da cultura e do conhecimento. É uma mais-valia”, assume.
Noélia Pedrosa frisa ainda a importância da integração na RBE concelhia e nacional, o que permite a todas as crianças e alunos do concelho “usufruir do espaço e das requisições”, independentemente de onde são.
A coordenadora da RBE a nível nacional, Maria João Filipe, explica que o primordial propósito das bibliotecas é “disponibilizar recursos” e “capacitar para o uso desses recursos”.
“Esta é uma rede de trabalho com 30 anos. Do mais particular ao mais global, é sempre importante que se beneficie da experiência uns dos outros. Quando falamos das bibliotecas a trabalhar em rede, a rede começa dentro da escola, com o professor bibliotecário e os restantes professores” adianta.
E continua: “Alargamos um pouco e temos a rede dentro do agrupamento, a trabalhar de forma articulada, potenciando as diferenças dos intervenientes. Depois, alargamos a rede para o concelho e temos redes concelhias. Leiria tem uma fortíssima rede concelhia que inclui todos os agrupamentos e bibliotecas públicas. E depois temos a rede nacional que permite partilhar conhecimento, saberes e até recursos”, esclarece, mencionando que é possível o empréstimo entre bibliotecas por todo o País.
No distrito de Leiria, são mais de 120 as bibliotecas – escolares ou públicas, que integram esta rede e, até ao próximo ano, este número deverá aumentar (ver caixa).
Programa quer chegar às crianças do 1.º ciclo