Viver
Hádoc. Comboios, um filme sem palavra, encerra a temporada de 2026
No Teatro Miguel Franco, em Leiria
Parceria JORNAL DE LEIRIA e Hádoc - Festival de Cinema Documental.
Texto de Nuno Granja, coordenador e programador do Hádoc.
“There is plenty of hope.
An infinite amount of hope.
But not for us.”
Franz Kafka
É com esta citação de Kafka, sobre um simples fundo negro, que se inicia uma contemplativa travessia do século XX, magistralmente conduzida pelo realizador Maciej Drygas através de Trains (Pociągi, 2024), filme vencedor da mais recente edição do IDFA (International Documentary FilmFestival of Amsterdam) – certame de referência do cinema documental mundial.
Se o comboio é um inequívoco símbolo de movimento e de mudança, esta pode por vezes revelar-se trágica, como a História já o provou de forma recorrente; levando a que a alegria da viagem se transforme lentamente numa espécie de maldição da Humanidade. Esta dualidade e fatalidade são vincadas aos primeiros minutos de filme, em que, da cena de abertura, datada do início do século passado – e onde se exibe a hercúlea tarefa da construção de enormes locomotivas a vapor – se passa para imagens das primeiras viagens nestes comboios, e, num mesmo fôlego, se observa como a alegria dos passageiros destes gigantes de ferro dá lugar às pesadas e dramáticas movimentações das tropas da Primeira Grande Guerra.
Trains é totalmente construído a partir de imagens de arquivo, num processo que consumiu dez anos da carreira de Maciej J. Drygas, e o levou a trabalhar com 98 arquivos de diversas partes do mundo, ainda que “apenas” utilize material de 45 dessas fontes, naquele que é o seu mais dispendioso projeto até ao momento. Trains não tem uma única palavra, e o percurso monocromático destes comboios ao longo da história da século XX é inteiramente suportado pelo desenho sonoro de Saulius Urbonovicious, sobre excertos da composição Compartment 2, Car 7, de Paweŀ Szymański.
Esta descrição poderá fazer levantar o sobrolho dos mais céticos, não sem alguma razão, há que convir. Trains não é um filme fácil nem convencional e, como naturalmente se antecipa, ao longo dos seus 81 minutos de duração apresenta algumas imagens violentas e chocantes, que não procuram esconder nem camuflar o lado mais sombrio e repugnante da espécie humana. Ainda que de difícil “digestão”, o segredo para a genialidade de Trains passa também pela montagem e edição de Rafalŀ Listopad, igualmente premiadas no IDFA.
O tempo passa, padrões repetem-se, mas tal como nas linhas férreas, existe sempre uma bifurcação que permite escolher um caminho diferente e, no limite, prolongar indefinidamente a viagem; e é esta proposta alegórica que Trains tem para apresentar e que fazem dele um dos melhores filmes de 2024.
30 de Junho, Teatro Miguel Franco, Leiria, 21h30
Comboios
de Maciej Drygas
Trains (Pociągi) | 81 min. | Polónia, Lituânia | 2024 | m/12
* International Documentary Film Festival Amsterdam 2024 – Vencedor Melhor Documentário
* International Documentary Film Festival Amsterdam 2024 – Vencedor Melhor Montagem
* DOK.fest München 2025 – Seleção Oficial
* DocsBarcelona 2025 – Seleção Oficial
Sinopse
"Há esperança infindável. Uma infinidade de esperança. Mas não para nós." Estas palavras de Franz Kafka, escritas num mundo que ainda não conhecia o pior do século XX, abrem o mais recente trabalho do mestre polaco do documentário de arquivo, Maciej Drygas.
Como uma nuvem escura que se adensa sobre a paisagem, a epígrafe anuncia o que está para vir: um mosaico visual composto exclusivamente por imagens recolhidas em 46 arquivos de todo o mundo, um monumento cinematográfico à dualidade do engenho humano.
Comboios atravessa o século XX ao sabor dos carris, desde a euforia da construção das locomotivas, o glamour das viagens de comboio, a elegância dos vagões-restaurante, passageiros em traje de festa que embarcam com a esperança de que algo mude ao chegar ao destino.
Há uma beleza quase inocente nestas imagens, uma fé no progresso que o cinema soube captar desde os seus primeiros anos. Mas o mesmo engenho que transporta sonhos depressa se transforma em máquina de horror. As estações enchem-se de soldados que partem para a frente e regressam mutilados, transportados nos mesmos vagões que os levaram. Os prisioneiros desfilam esfarrapados, as deportações sucedem-se num ciclo que parece não ter fim. Os comboios que levavam famílias em viagem de lazer começam a transportar corpos. A euforia dá lugar ao silêncio.
Drygas não acrescenta palavras. Não há narração, não há entrevistas, não há testemunhos. Há apenas imagens — um arquivo emocional do século XX — e uma paisagem sonora esculpida com precisão cirúrgica por Saulius Urbanavicius, onde o chiar dos carris, o apito das locomotivas e o silêncio absoluto se entrelaçam numa partitura de raro impacto. A montagem de Rafał Listopad, premiada no IDFA, cose estas imagens como quem cose feridas: com delicadeza, mas sem nunca desviar o olhar. Trata-se de um labirinto de possibilidades, de caminhos que se cruzam e se separam, uma encruzilhada permanente entre a beleza e a barbárie, entre o génio humano e a sua perversão mais obscura.
Vencedor do Grande Prémio do IDFA 2024 para Melhor Filme e Melhor Montagem, e presente nos mais conceituados festivais internacionais, como é que Comboios responde a Kafka quando ele nos diz que há esperança infindável, mas não para nós? Talvez assim: reconstruindo, frame a frame, a memória do que fomos — para que não voltemos a ser.