Economia

Indústria quer competir na defesa, mas ainda desconhece as regras do jogo

22 out 2026 08:00

Seja a fornecer moldes seja a fornecer produto acabado, empresários reconhecem que o sector da defesa é estratégico para revitalizar a indústria portuguesa. O que falta, referem, é clareza sobre as necessidades e regras deste mercado

Jantar conferência Moldes e Plásticos - Jornal de Leiria
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Ricardo Graça
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Ricardo Graça
Daniela Franco Sousa

Foi aceso o jantar-conferência Moldes & Plásticos, organizado pelo JORNAL DE LEIRIA, que sob o mote Indústria para o Futuro juntou, na Quinta das Silveiras, Nuno Silva (vice-presidente da Associação Nacional da Indústria de Moldes), Paulo Fernandes (coordenador da Estrutura de Missão Reconstrução da Região Centro), Rui Santos (director-geral do Aeronautics, Space and Defence Cluster Portugal) e José Couto (presidente da Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel).

Num contexto difícil, de quebra da indústria, portuguesa e da Europa, os empresários reunidos na passada quinta-feira, em Leiria, mostraram-se, de forma geral, receptivos a ajustar os seus negócios para agarrar as oportunidades criadas pelo domínio da defesa.

No entanto, reforçaram junto do responsável pelo cluster AED Portugal, que urge clarificar quais são as regras, os mercados e o tipo de produção que tem potencial para alcançar este circuito. Apesar de premente, este esclarecimento não está a ser feito, apontaram os empresários.

Nuno Silva defendeu que, durante muitos anos, a indústria portuguesa investiu muito, mas não foi em inovação. “Fizemos pouca transferência desse investimento em produtos inovadores para entrar em cadeias de produção diferentes.

Nesta altura, é preciso mudar, investir muito em conhecimento diferente, em modelos de negócio diferentes. E muitas empresas não têm capacidade de investimento e outras não sabem como ser disruptivas”, contextualizou o vice-presidente da Cefamol.

“É preciso aproveitar as oportunidades que a reconstrução do território traz, oportunidades para fazer mudança estratégica no negócio”, apelou Nuno Silva.

O responsável reconheceu que esta mudança “é desconfortável, porque vínhamos de uma lógica que conhecíamos bem e, de repente, é preciso sair da nossa zona de conforto”.

Outra dificuldade, é que “temos empresas com pouca escala para entrar nalguns mercados, como é o caso da defesa”, pelo que é necessária “união, cooperação”, advogou Nuno Silva, para quem “não é possível entrar a sério na defesa sem parceiros”.

“Se já fomos capazes de o fazer no passado [penetrar em novos mercados], quem está ao leme tem de fazer esse percurso, que não é fácil”, acrescentou.

José Couto concordou que o contexto é adverso. Enquanto a Europa está a baixar a sua quota de mercado na produção automóvel, a China está a aumentar.

E se a esmagadora maioria da produção automóvel da Europa se destina a países europeus, também nestes mercados a presença de veículos chineses tem aumentado.

Por outro lado, também os Estados Unidos subiram em produção, comparativamente com Portugal e Europa.

O dirigente da AFIA realça que o esforço feito pela indústria automóvel portuguesa para se manter “tem sido enorme”.

As cerca de 360 empresas do sector facturam 14,7 mil milhões de euros e são responsáveis por cerca de 5% do PIB nacional.

“Os nossos clientes compram-nos porque somos competitivos, 27% acima da indústria transformadora nacional. Mas tudo o que ganhamos no chão-de-fábrica e com a nossa criatividade, entregamos ao cliente”, nota José Couto.

O dirigente reparou que as áreas onde as indústrias europeias foram capazes de se reindustrializar foram aquelas onde puderem descarbonizar-se e também a indústria automóvel da área dos componentes, que pôde entrar noutros processos e criar valor.

“Defesa exige tempo e energia”

Questionado sobre como pode a indústria de moldes produzir para a indústria da defesa, Rui Santos antecipa: “todos percebem que há na defesa dinâmicas intrínsecas”.

Ainda assim, “são múltiplas as plataformas”, desde transportes terrestres, marítimos, da aeronáutica e outros equipamentos “onde a aplicação é grande” e “há nichos” que podem fornecer Forças Armadas e outros actores.

Além disso, “a Tekever está a ajudar a desbravar”.

“Há um trabalho de ‘embaixadora’ que está a fazer”. E, por conseguinte, “Portugal está a despertar interesse noutros países, que vêm para o nosso para tirar partido desse nosso saber”, constatou o director-geral.

“A defesa exige tempo e energia, mas nós temos capacidade e condições para sermos bem-sucedidos. Cabe ao cluster acelerar o processo, mas não é um mercado aberto e está à vista de todos que há regras, camadas de soberania, confidencialidade, etc.”, alertou.

“Temos de envolver os ministérios da Defesa, da Economia, dos Negócios Estrangeiros e indústrias. Ainda não estamos lá, estamos a fazer esse caminho. Há que trabalhar em conjunto e rápido”, expôs o director-geral do cluster AED Portugal, apelando também ao envolvimento de associações, entre as quais a AFIA.

Mas Rui Santos avisou que a defesa não vai querer comprar moldes, preferindo produtos acabados que terão de ser exportados para Alemanha ou França, já que Portugal não tem mercado para os utilizar.

“As Forças Armadas não compram peças, compram produtos, que a indústria hoje não tem.”

Esta perspectiva, porém, suscitou grande apreensão entre os empresários. “Se faço botas para o exército alemão, por que não faço para Portugal?”, comparou José Couto, para quem o mais importante é saber quais são as regras para entrar na defesa.

O responsável pela AFA também não vê de forma linear a entrada de OEM em Portugal.

“É preciso saber que valor deixam cá, o que estamos a proteger ou não.”

O dirigente equaciona se não valerá mais a pena investir nas nossas empresas, que já cá estão, contestando uma situação de um certo “feudalismo”.

Entre o público, também Luís Febra, presidente da Associação Empresarial da Região de Leiria/ Câmara de Comércio e Indústria, lembrou que foi desenvolvido neste território um grupo de trabalho para a defesa, mas que é preciso saber “quais e onde” estão as oportunidades deste domínio, de modo a  fazer integrar estas indústrias na Lei de Programação Militar.

Rui Tocha, director-geral do Centro Tecnológico da Indústria de Moldes, Ferramentas Especiais e Plásticos, reforçou as dúvidas.

“Temos de nos posicionar junto de produtos novos, com a dificuldade de não saber qual é a necessidade do cliente, que é muito difusa. O Estado não está a conseguir dar um drive”, apontou Rui Tocha, que procurou galvanizar os empresários para se unirem e influenciarem os políticos, até porque “é preciso dinheiro para investir”.

Rui Santos frisou que “a Lei de Programação Militar é um instrumento crítico” e que grande parte dos 6 mil milhões de euros vindos de Bruxelas servirão para comprar plataformas que o País não tem.

Paulo Fernandes, coordenador da Estrutura de Missão Reconstrução da Região Centro recordou, por sua vez, o panorama de destruição que encontrou nas empresas neste território, provocado pela tempestade Kristin que decorreu no início do ano.

Para cerca de mil milhões de euros de prejuízos nas empresas, foram nelas colocados 2,5 mil milhões de euros, precisamente para que pudessem não só recuperar edificado e equipamentos, como amenizar também as suas perdas de produção. Entre outras lições a reter com a situação, salientou que não haverá sustentabilidade sem visão a longo prazo e integração de políticas.