Economia

João Prior: “Temos capacidade local para competir à escala global”

4 out 2026 15:00

O fundador da Growset, venture builder e grupo de investimento tecnológico focado em inteligência artificial (IA) e soluções de transformação digital empresarial, fala das oportunidades criadas pela IA, do potencial da indústria de Leiria e da necessidade de antecipar mudanças num mercado cada vez mais competitivo

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João Prior
DR

A Growset define-se como gestora de participações, entrando em parte do negócio. O que ganha um fundador quando vos tem ao lado, para lá do capital?

Mais do que gerir participações, assumimos também um papel de incubadora de ideias e negócios. Muitas vezes partimos de uma oportunidade, juntamos as pessoas certas e ajudamos a construir a empresa desde o início. Temos mais de 20 anos de experiência a criar e fazer crescer negócios, desde startups a grandes empresas, em Portugal e em mercados internacionais. Quando entramos numa empresa tentamos ser muito práticos: ajudar a definir a oferta, montar a equipa, chegar a clientes, abrir mercados ou evitar erros que nós próprios já cometemos. O capital é importante, mas o maior valor está na experiência acumulada e na capacidade de transformar uma ideia num negócio e fazê-lo crescer.

A Growset anunciou publicamente no final de 2024 um investimento de mais de 10 milhões de euros no seu portefólio, com uma forte componente internacional. Como tem evoluído o portefólio e qual é hoje a lógica desse crescimento?

O contexto mudou muito desde 2024 e nós, enquanto investidores, também temos de nos adaptar. A inteligência artificial (IA) está a criar oportunidades como há muito não víamos. O nosso papel é perceber essas mudanças cedo e aproveitar as oportunidades que aparecem. Estamos a construir empresas especializadas em diferentes áreas de serviços e tecnologia, que se complementam. Acreditamos muito em Portugal para desenvolver talento e criar soluções. Depois, é no mercado internacional que encontramos a dimensão para crescer.

Da Growset Labs têm vindo a sair novas empresas e o portefólio tem crescido. Como é que uma ideia entra nesse processo e sai como negócio? Isto é, como é o percurso, do primeiro esboço ao primeiro cliente da empresa?

Não temos uma fórmula fechada. Às vezes, identificamos uma oportunidade e procuramos as pessoas certas. Outras vezes encontramos pessoas com conhecimento profundo de uma área e percebemos que existe uma oportunidade para construir algo em conjunto. Depois, é perceber se existe mercado, se conseguimos fazer algo diferente e se temos capacidade para chegar aos clientes. A partir daí ajudamos a montar a empresa, construir a oferta e conquistar os primeiros clientes. Tentamos encontrar áreas específicas onde possamos ser realmente bons. Num mercado tão competitivo, é muito difícil ganhar tentando fazer tudo.

Imagino que receba muitas propostas por ano, por isso, quando olha para a ideia exposta por um fundador, o que o faz dizer sim? Há algum sinal que já aprendeu a valorizar, a partir da sua experiência prática?

Quando comecei, acho que me entusiasmava mais com as ideias. Hoje olho primeiro para as pessoas. Com o tempo, e também com alguns erros pelo caminho, percebi que uma boa ideia não chega se não tivermos as pessoas certas para a executar. Depois tem de existir uma oportunidade de mercado e uma razão para acreditarmos que podemos fazer melhor ou de forma diferente. Prefiro uma ideia razoável com uma equipa capaz de executar do que uma excelente ideia sem capacidade de execução.

A Growset privilegia os serviços tecnológicos e a inteligência artificial. O que é que esta combinação muda, na prática, na forma como as empresas trabalham e prestam serviços? Há ainda oportunidades por explorar?

Vejo uma oportunidade muito grande nos serviços profissionais. Ao longo dos anos trabalhámos com grandes empresas, em Portugal e noutros mercados, e conhecemos bem os desafios e a exigência deste tipo de clientes. A IA não substitui o conhecimento, a experiência ou a capacidade de perceber o problema do cliente. Pelo contrário, torna-os ainda mais importantes. O que muda é a velocidade: vamos conseguir fazer mais em menos tempo e criar mais valor para o cliente. Para nós, a oportunidade está em juntar esse conhecimento à IA, criar soluções e tecnologia próprias e tornar estas empresas mais competitivas. Se soubermos aproveitar esta mudança, podemos desenvolver soluções em Portugal e competir melhor lá fora.

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Conhece bem os ecossistemas de Lisboa e de Leiria. O que existe aqui, no âmbito das empresas, quadros ou cultura de trabalho que, quem está na capital, no Porto ou em Braga, ainda não percebeu?

Ao longo dos anos fui acompanhando a evolução de Leiria e acho que há hoje uma ambição diferente, muito pela necessidade de adaptação a um mundo cada vez mais competitivo. Leiria sempre teve uma cultura empresarial forte e muita resiliência. Hoje, a tecnologia permite-nos chegar a novos mercados e competir onde antes não conseguíamos. Temos capacidade local para competir à escala global. Nós próprios temos sentido isso na prática. Temos uma empresa na região de Leiria com mais de 50 pessoas ligadas ao ecossistema local. Essa ligação tem sido importante para o nosso crescimento, quer pela colaboração com a Universidade de Leiria e Oeste em temas de investigação e desenvolvimento, quer pelo acesso a talento, sobretudo em Engenharia Informática. A Startup Leiria também tem tido um papel importante na aproximação entre empresas, empreendedores e investimento. O desafio é potenciar o que Leiria já tem, juntando tecnologia, conhecimento e talento para competir em novas áreas e mercados.

A fileira da defesa tornou-se “sexy” e ambiciona ser uma nova grande frente do investimento europeu, com Bruxelas a canalizar mais de mil milhões de euros para o Fundo Europeu de Defesa só este ano. Boa parte dessa despesa não é armamento, mas logística, manutenção, dados e formação. Que espaço é que isso abre às empresas portuguesas de software?

Existe uma oportunidade clara para as empresas portuguesas de software, nomeadamente na gestão de operações, dados, automação, logística ou integração de sistemas. O importante é perceber onde já temos conhecimento e capacidade para fazer realmente a diferença. Leiria tem uma base industrial forte, engenharia e muito conhecimento. O desafio é juntar essa capacidade industrial à tecnologia e competir em novas áreas e mercados.

A indústria de moldes e de metalomecânica da região tem engenharia reconhecida em todo o mundo e está a diversificar para a aeronáutica, dispositivos médicos e, naturalmente, a defesa. Onde é que a tecnologia e o capital podem acrescentar mais valor a empresas que já sabem fabricar bem?

Estas empresas já têm uma enorme vantagem: sabem fazer. Têm engenharia, conhecimento industrial, capacidade de produção e, em muitos casos, clientes internacionais. A tecnologia pode ajudá-las a ser mais eficientes, desenvolver novos produtos e chegar a novos mercados. A IA será mais uma ferramenta nesse processo. O capital pode ajudar a acelerar esse crescimento, permitindo investir em pessoas, tecnologia, capacidade produtiva ou na entrada em novos mercados. Leiria sabe produzir. O próximo passo é acrescentar tecnologia e subir na cadeia de valor.

Além disso, estas empresas de fileiras muito tradicionais têm algo que consigam dar a um mundo tão difícil, competitivo e onde é necessário tanto investimento, inteligência e força de lobby? Afinal, como já muitos especialistas alertaram, a Defesa não precisa de empresas para produzir peças de plástico e parafusos…

Acho que a resposta está na especialização. Uma empresa portuguesa não tem de competir directamente com os maiores grupos mundiais. Pode fazer parte da cadeia e ser muito boa numa área específica: um componente, um material, um processo industrial, software ou outra solução concreta. Num mundo tão competitivo, ser muito bom numa área específica pode valer mais do que tentar fazer um pouco de tudo. E é preciso antecipar. Quando uma oportunidade é óbvia para todos, normalmente já vamos tarde. Hoje, com a velocidade a que tudo muda, essa capacidade de antecipação é ainda mais importante.

E o ensino? A mudança de nome e de estatutos de Politécnico de Leiria para Universidade de Leiria e Oeste (ULO) chega para mudar agulhas e abrir novas portas nas fileiras aeroespacial, materiais inovadores ou deeptech?

Pode abrir novas portas, mas a mudança de estatuto, por si só, não chega. O mais importante é conseguirmos aproximar ainda mais o ensino e a investigação das empresas. A ULO pode potenciar aquilo que as empresas da região já fazem bem e ajudá-las a entrar em novas áreas. A nossa experiência de colaboração, quer em investigação e desenvolvimento, quer no acesso a talento, tem sido muito positiva. Nestes temas, esperar tem um custo. Quando demoramos demasiado tempo a começar um projecto, a oportunidade pode já ter mudado.

PERFIL

Quem é João Prior?

Natural de Leiria, 40 anos, João Prior conta com mais de 20 anos de experiência na criação e crescimento de empresas. É formado em Design pela ESAD - Universidade de Leiria e Oeste e tem um mestrado executivo em Gestão e Inovação Digital pela Universidade Católica Portuguesa. Fundou a Hi Interactive e integrou mais tarde a Deloitte, onde foi responsável por uma das áreas de tecnologia. Actualmente, lidera a Growset, um grupo que cria e investe em empresas de tecnologia e serviços, com vários projectos ligados à região de Leiria.