Viver
Palavra de Honra | A perfeição cansa e tem muito pouca piada
Sara Mateus, Designer e professora de artes visuais
Já não há paciência... para tanto grupo de WhatsApp: o da família, o do trabalho, o da prenda da amiga, o da surpresa à que vai casar, o da vaquinha para a máquina de lavar da outra, o do evento da prima da vizinha. Cada grupo tem direito a sub-grupos, como matrioskas, mas em versão notificação. E o pior: o WhatsApp tornou-se um balcão de atendimento onde se exigem respostas instantâneas. Antigamente, quem não atendia o telefone “não estava em casa”. Hoje, o “visto às 14h32” sem resposta já dá direito a processo disciplinar.
Detesto... gente mentirosa e arrogante, que se julga dona da razão. Atribui-se a Bertrand Russell a ideia de que o problema do mundo moderno é os estúpidos andarem cheios de certezas e os inteligentes cheios de dúvidas. Acrescento eu: os primeiros costumam ter também mais volume de voz e menos pausas para respirar.
A ideia... de nos meterem em caixinhas e gavetas e de nos compararem, como se fôssemos todos iguais, saídos da mesma linha de montagem. Somos gente, não somos arrumação de armário! E, já agora, ainda ninguém me disse em que gaveta estou eu. Se alguém souber, que avise: devo lá ter deixado as chaves.
Questiono-me se... um dia formos substituídos por máquinas, o que fica de nós? O que nos faz humanos? Talvez seja o riso nervoso, o erro, a saudade, o esquecer onde pusemos o telemóvel enquanto falamos nele. Isso a máquina ainda não faz.
Adoro... pessoas sensatas, empáticas, alegres e descontraídas, daquelas que têm sempre uma palavra amável, sem julgamentos nem presunções. Estão em vias de extinção. Hoje toda a gente tem opinião sobre tudo, aponta o dedo a todos e vive em modo reativo. Se isto fosse um documentário da National Geographic, a narração seria: “a espécie rara avista-se à porta do café, de sorriso calmo e sem telemóvel na mão.”
Lembro-me tantas vezes... da liberdade que sentia quando dançava: o tempo ficava suspenso e tudo parecia fazer sentido. Nem o telemóvel tocava nem eu me lembrava de olhar para ele.
Desejo secretamente... que o relógio pare, que o tempo abrande e que voltemos a valorizar o tédio. Só no tempo presente é possível Ser, sentir e criar. O tédio já foi o berço das melhores ideias. Agora é só um intervalo entre dois vídeos.
Tenho saudades... das máquinas fotográficas analógicas, da emoção de ir ao fotógrafo revelar o rolo e da frustração de metade das fotos saírem desfocadas ou com o dedo à frente. Hoje acumulamos milhares de imagens no telemóvel, no computador, em discos externos, e nunca mais as contemplamos. Antes tínhamos 24 fotografias e uma enorme expectativa. Agora temos 24 mil e nenhuma vontade de as ver.
O medo que tive... quando vi tudo a arder à minha volta, e que ainda sinto quando penso no nosso bem mais precioso: as árvores. Elas não fazem barulho quando desaparecem, e é
isso que mais me assusta. Convém começar a ouvi-las antes de elas se calarem.
Sinto vergonha alheia... dos discursos fascistas e das discussões ocas e mal informadas que nos entram em casa todos os dias, pelo telemóvel ou pela televisão. Dos políticos eleitos para nos representar na Assembleia da República e nos quais nem sempre me revejo. Se isto fosse futebol, eu pedia o VAR.
O futuro... parece sombrio, com o crescimento da extrema-direita e semelhanças inquietantes com tempos passados. Mas quero acreditar que as novas gerações terão a capacidade de virar o jogo e de fazer o que nós, por cansaço, comodismo ou excesso de grupos de WhatsApp, não fizemos. Se não resultar, resta-nos o plano B: aprender a plantar batatas.
Se eu encontrar... tempo para estar apenas comigo, sem pressa de chegar a lado nenhum, prometo não o gastar no scroll infinito. E, sobretudo, sem a tentação de fazer a story do momento, porque, como se sabe, o que não é publicado não aconteceu. O novo luxo é mesmo o offline: estar presente, comigo, neste silêncio.
Prometo... falhar. É o título de um livro de Pedro Chagas Freitas e merece ser o lema do século. Por mim, fazíamos uma ode ao erro em vez de andarmos atrás da perfeição. Faríamos um elogio à imperfeição: à torrada queimada, ao cabelo fora do sítio, à resposta fora de horas. A perfeição cansa e tem muito pouca piada.
Tenho orgulho... nos jovens que, nas últimas semanas, saíram à rua para reivindicar um direito que é de todos: o da habitação. Fazem-no com distinção, de forma organizada e pacífica, com cânticos democráticos e cartazes criativos, e dão-nos a lição que muitos adultos já esqueceram: protestar também pode ter classe. Orgulho-me porque mostram que o futuro não é só uma ameaça: é também um assunto em que eles já estão a trabalhar.