Viver
Palavra de Honra | Questiono-me se o Batman combate o crime à noite porque é bom samaritano, se é porque tem insónias
António Tudella, Environmental Graphic Designer
Já não há paciência... para pessoas que lidam com a inteligência artificial como se fosse um oráculo ou uma profecia a seguir senão morremos todos. Seita dos infernos.
Detesto... é uma palavra forte, mas… aquele optimismo de m*rda em que há sempre alguém que diz — podia ter sido pior — (pausa para respirar) sim podia, e também podia não ter acontecido, e isso é que era bonito. Faz-me pensar que nem todos merecemos opinar (contando comigo), mas uns minutinhos para reflexão e uma boa noite de sono, isso merecemos.
A ideia… tenho ideia de que quando a tens e ela é realmente boa, assim que a partilhas, acabou-se. Passas o resto do tempo a ouvir “não sei se isso vai resultar”, “não te metas nisso” entre outras igualmente positivas. OK, exige trabalho para pôr em prática — dar-lhe forma, conceito, contexto — aceito; mas o final pode ser épico, vamos prescindir disso? Para mim as ideias são nuvens abstractas de conceitos que se misturam com factos, que vêm e vão consoante os estímulos e o propósito em jogo; acredito que dar balizas de critério durante a idealização é bom, estrangular a imaginação da criação, não.
Questiono-me se... o Batman combate o crime à noite porque é bom samaritano, se é porque tem insónias, se é por ser um convencido de primeira linha e sente que tem de ser ele a tratar do assunto (porque todos os outros são uns incompetentes), ou… se é só uma infância, enfim, mal resolvida com um orçamento obsceno.
Adoro... gente que sabe muito e não transforma uma conversa num freakshow de vaidade e soberba.
Lembro-me tantas vezes... de acreditar que aos trinta já se era uma “beca” velho e que aos quarenta toda a gente sabia o que andava a fazer da vida. Hummmm… também “me lembro tantas vezes” do leite creme e do pão-de-ló da
minha tia Manela!
Desejo secretamente... que a nossa vida — por esse o mundo fora, digo — tenha comentários do realizador, só para ver quem foi o menino que escreveu as personagens e em que estado estava. Já mais a sério e sem perder o tom, desejo
secretamente estar para sempre ligado de alguma forma a museus.
Tenho saudades... de clubes de vídeo. Havia qualquer coisa de mágico no momento de percorrer corredores à procura do filme perfeito para um sábado à noite com amigos.
O medo que tive... quando ouvi o meu primeiro disco (rígido) externo fazer “aquele” barulhinho que soa a recado — puto, fui! — pela primeira vez… e perceber que a minha juventude vivia dentro de uma caixa.
Sinto vergonha alheia... por quem trata empregados de mesa de forma parva como se fossem figurantes da sua realidade (também há empregados de mesa a puxar pró’ idiota, bem sei), mas mantenhamos os mínimos olímpicos.
O futuro... teve (sim teve) coisas brilhantes como a fibra óptica e a computação quântica. Em constante mudança e evolução, o futuro reinventa-se e expressa-se agora pela mão da inteligência artificial — em tudo — contudo mostra-se incapaz de impedir que haja alguém a atender o telemóvel em Voz alta. Perdão. Alta-voz!
Se eu encontrar... o Corto Maltese num qualquer porto deste mundo, pago-lhe um copo, damos duas de letra, e peço-lhe que me ensine como é que se desaparece sem deixar rasto (ou notificações). Se encontrar HIS DUDENESS, El Duderino aí a coisa muda de figura … e… discutimos só o sentido da vida. “The Dude abides.”
Prometo... que se um dia me apanharem a usar a expressão “criador de conteúdos” como forma de me descrever/ promover e não tiver um pingo de escárnio na cara, podem deixar-me a pé numa estação de serviço da autoestrada. A escolha geográfica é toda vossa, o território é vasto. Prometo ainda dedicar-me a encontrar o Wally, com o mesmo entusiasmo de quando era puto.
Tenho orgulho... de preferir vinho a kombucha e de não seguir gurus;