Sociedade
Projecto-piloto quer cuidar dos idosos enquanto respeita a autonomia de cada um
Autarquia e instituições pretendem garantir a segurança e acompanhamento, enquanto idosos podem manter as suas rotinas em casa
O momento em que se dá entrada numa Estrutura Residencial para Pessoas Idosas (ERPI) significa, para muitos utentes, a perda de uma autonomia preservada a vida toda, levada pelo envelhecimento que faz reduzir, entre outras, as capacidades físicas das pessoas.
Uma vez inseridos nestas instituições, os idosos abandonam as rotinas que sempre tiveram em casa e, conforme entende o Município de Porto de Mós, “nem todas as pessoas que começam a necessitar de algum apoio estão preparadas ou precisam de ingressar imediatamente numa ERPI em regime permanente”.
A pensar nestes casos, a autarquia vai avançar com um projecto-piloto que funciona como centro de noite, o contrário do que, até agora, é praticado pelas instituições de acção social.
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“O projecto consiste numa resposta que permite aos utentes permanecerem nas suas habitações durante o dia, mantendo as suas rotinas, os seus hábitos e a sua ligação à comunidade, recorrendo à ERPI apenas durante o período nocturno”, explica a vereadora Telma Cruz.
Desta forma, “os idosos beneficiam da segurança, vigilância e acompanhamento necessários durante a noite, regressando às suas casas durante o dia para continuarem a desenvolver as suas actividades habituais. Trata-se de uma solução particularmente adequada para pessoas que vivem sozinhas ou que começam a sentir alguma fragilidade, mas que ainda possuem um elevado grau de autonomia”.
Numa primeira fase, esta iniciativa será implementada na Associação Bem-Estar Cruz da Légua, escolhida pela sua proximidade às zonas mais rurais do concelho onde “o envelhecimento da população e o isolamento geográfico são mais evidentes”.
“Se a experiência for positiva, a intenção é alargar este modelo a outras IPSS do concelho, criando uma rede de respostas que cubra de forma mais abrangente o território”, avança a autarca.
Desta forma, os beneficiários podem manter as suas actividades diárias, como o cuidado da horta ou dos animais, normais numa vida de campo, continuando a passar mais tempo na sua habitação que, habitualmente, custa a deixar de um momento para o outro.
“Permanecer em casa durante o dia significa conservar hábitos, rotinas, relações de vizinhança, contacto com familiares e amigos e continuar a desempenhar pequenas tarefas que contribuem para a auto-estima e bem-estar”, defende a vereadora.
Para Telma Cruz, este programa “é uma forma mais gradual e humanizada de responder à perda de autonomia, evitando mudanças bruscas na vida dos idosos e permitindo uma adaptação progressiva às necessidades que vão surgindo com o avançar da idade”.
Ao mesmo tempo, são garantidas a segurança e acompanhamento necessários durante a noite, um período que preocupa pela possibilidade de ocorrerem quedas, problemas de saúde ou situações de emergência, caso os idosos estejam sozinhos em casa.
Para já, o projecto terá uma capacidade inicial ajustada às condições da instituição e aos recursos disponíveis, com o propósito de criar um “modelo sustentável que possa ser progressivamente ampliado”, para a autarquia conseguir chegar a um número “cada vez maior de idosos” que careçam deste tipo de apoio.
Objectivo é atrasar institucionalização
No entendimento da Associação Bem-Estar Cruz da Légua, esta reposta inovadora está adequada aos novos desafios do envelhecimento da população, que obrigam ao surgimento de medidas diversificadas.
“Em termos de apoio domiciliário, queremos, ao máximo, retardar a institucionalização, e esta resposta dá cobertura de apoio no período nocturno, que é a maior preocupação das famílias”, explica Raquel Cardoso, coordenadora de serviços gerais da instituição localizada na freguesia de Pedreiras.
A associação aguarda a resposta “a candidaturas de financiamento para a remodelação do espaço, com o intuito de criar mais quartos e, numa fase inicial, conseguirá disponibilizar duas camas para este projecto-piloto.
Além de garantirem a pernoita dos utentes, os idosos não ficam desamparados durante o dia: toda a alimentação é assegurada e existe também o acompanhamento na saúde, através da administração atenta da medicação.
O plano é, no momento em que a instituição vai deixar os utentes do centro de dia a casa, ao final da tarde, vai também buscar os idosos que vão beneficiar deste centro de noite, com o contrário a acontecer no período da manhã.
“Acreditamos que esta resposta faz todo o sentido no contexto actual e representa uma mais-valia para a população sénior. Se os resultados forem positivos, tudo faremos para que possa ser replicada noutra IPSS do concelho, garantindo que mais idosos tenham acesso a uma solução que combina autonomia, segurança e qualidade de vida”, reforça a responsável pela pasta da Acção Social da câmara.
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