Opinião
A indiferença
Cada verificação era acompanhada de abanos de cabeça e revirar de olhos, demonstrando um mal disfarçado desprezo
Era sábado. À porta do restaurante, uma pequena fila fazia saber aos recém-chegados que seria necessário esperar que outros clientes terminassem o repasto.
Lá dentro, um corredor estreito no meio das mesas apinhadas dobrava a esquina em volta do balcão e seguia em direcção a outra sala onde mais mesas se enchiam de comensais.
Algazarra, barulho de talheres, gargalhadas e copos a tinir.
Um empregado em cada sala voava entre as mesas, a cozinha e o balcão, parando de quando em vez na caixa registadora a acertar as contas dos que terminavam a refeição.
Retirados os pratos, chávenas de café, copos e talheres, das mesas desocupadas, eram pousados com estrondo no balcão de inox e logo o barulho das toalhas de papel a serem amassadas e o das cadeiras a serem repostas no seu lugar anunciavam mais uma mesa pronta a ser ocupada.
Da lista dos clientes em espera saía então um nome, chamado alto e bom som, de forma que se ouvisse para além do guarda-vento e da porta aberta.
E mais um pequeno grupo entrava, arrastava cadeiras para se sentar e recebia depois na mesa os pratos do queijo, a taça de azeitonas, e as garrafas do que tivessem pedido, tudo acompanhado pelo barulho do que era pousado com pressa.
Feita a escolha dos clientes, seguia o pedido, em voz alta, para a cozinha, de onde iam saindo as iguarias prontas, e anunciadas, do mesmo modo, pelo cozinheiro.
Fixei-me numa mesa ao fundo, onde se sentavam duas pessoas quase imóveis e em silêncio, já com a refeição terminada, e onde pousavam dois pequenos algarismos insuflados, indicando o número 42.
Voltada para mim estava a aniversariante, embrenada no telemóvel.
Passou-o depois para as mãos de quem se sentava em frente — e de quem eu apenas via o casaco de malha, o cabelo grisalho, e a ponta da bengala — sacudiu a cabeleira, agarrou nos algarismos, deu instruções, por sinais, para que fosse tirada mais do que uma fotografia, e abriu o conveniente sorriso.
Seguiu-se depois uma interminável série de poses para a fotografia, verificação do resultado, crítica ao resultado, instruções curtas e secas de como fazer bem melhor, retoma dos números e do sorriso… e tudo de novo.
Cada verificação era acompanhada de abanos de cabeça e revirar de olhos, demonstrando um mal disfarçado desprezo pela incapacidade de, suponho, a senhora conseguir enquadrar a imagem a contento.
Acabou por fazer uma selfie, sozinha, e voltou a mergulhar no telemóvel.
Quando chegou a minha vez de ocupar, por coincidência, a mesa ao lado, pude ver, pelos traços comuns, que era a mãe.
Sentada há demasiado tempo, ia massajando um joelho, tentava mover a perna, e franzia os olhos a cada barulho mais intenso, olhando em frente, em silêncio, com um olhar fatigado e triste.
Era mãe de quem fazia anos, e parecia não servir para mais do que fotografar o sorriso da filha, para outros verem.
Um tempo depois a filha levantou-se para pagar, dizendo à mãe que trouxesse o casaco e o presente.
A mãe segurava na bolsa, na bengala e no presente, e não conseguia vestir o casaco.
A filha revirou os olhos.
Eu detestei-a.