Opinião

Assim morre um galinheiro

11 jun 2026 21:30

O peru já não mais parou, até se embriagar por completo e ser levado para futura ceia de Natal

O futuro avizinhava-se incerto. Aquele que fora companheiro e farol de um número incalculável de galinhas e progenitor de incontáveis ninhadas, aquele que ouvia e abraçava, o Galo Olímpio, não acordara ninguém, naquela madrugada, com o seu tom guinchado mais do que cantado, mas suportado por todos por respeito e amor ao ancião.

Engraçado como, depois de morto, era, afinal, detentor de uma das vozes mais afinadas, melodiosas e doces do universo!

Enfim, como sabemos, todos somos bons depois de partirmos. Continuando a narrativa, digo-vos eu, a gritaria, a consternação, o sofrimento e a dor toldavam o discernimento.

As lamúrias espirravam pelas redes ferrugentas. As galinhas carpideiras choravam e bramiam, num pranto de sofrimento fingido Galinhas, ainda no choco, mantinham quentes e preguiçosamente recolhidos os descendentes ainda não nascidos do falecido.

Temendo-se que nascessem prematuramente, cada uma das futuras mães obrigava-se a ausentar-se do sucedido. Esperançadas de que chocariam quem as auxiliasse no futuro, ali, ficavam resguardadas, poupadas aos pormenores da morte evitando-se, assim, achaques cardíacos e síncopes súbitas perfeitamente desnecessários.

Depressa, uma das mais jovens galinhas apresentou uma inovadora proposta. Far-se-ia um casting para eleger o que ocuparia o lugar do ilustre finado. Alguns cacarejos se levantaram contra a modernice, mas a ideia prevaleceu dada a urgência do momento. Da multidão asada que se perfilou, saiu, em primeiro lugar, um bufo de enorme porte, penachos como orelhas e óculos escuros, não fosse ele ave noturna.

Parecendo cumprir com o solicitado, logo se percebeu que não, quando, própria do instinto lançou uma quase fatal bicada a um pombo indefeso. Obviamente rejeitado, seguiu-se-lhe um garboso peru que, com o cadenciado glu-glu, embeiçou, imediatamente, o júri galináceo.

Assim ficaram as galinhas até ao momento em que se brindou, pois, a partir daí, o peru já não mais parou, até se embriagar por completo e ser levado para futura ceia de Natal.

De peito insuflado, passo quase galopado e asas amplamente abertas, um colorido e exuberante papagaio apresentou-se na passarela.

Desenhou um sorriso no bico, já curvo por natureza, e piscou um olho ao pessoal avícola que logo o elegeu para sucessor do defunto. Só no discurso de agradecimento, no entanto, se apercebeu do erro cometido, pois a ave debitava, caoticamente, palavras ocas e obscenas decoradas por aí.

- Oh, valha-nos Deus!!! - uma galinha, desesperada, suspirou. Eis, então, que algo caído dos céus formou uma cratera naquela terra poeirenta. Umas asas amassadas, besuntadas de algo escorregadio e agarradas a um corpo transparente, de lá surgiram.

Crentes na dádiva desabada do firmamento, transportaram a agitada respiração metálica para a capoeira, ignorando que aquele drone, aparentemente cheio de vida, jamais substituiria corações que batem, asas que se unem e se protegem e vidas que se amam assim que chegam ao Mundo.