Opinião
Evanescências de Agosto
O piquenique com hora de começo, mas que não findou. Tios e parentes em magote
O rasto da última maré já se dissipou no areal. E a morrinha matinal teima em permanecer. Uma ave fugaz pousa na enseada. Os contornos de uma nuvem evocam inocências no céu anilado.
Quentura passageira, sol efémero. Sentidos lassos. Lembranças vagas da infância. Os primos ausentes. E nós ansiando a voz que apregoava a bolacha americana.
A barraca convertida em casa de férias. A intemporalidade do horizonte. Bandeira amarela e vermelha. Xadrez a preto e branco. A agilidade da maresia nos cabelos. E o rumorejar das ondas. Vozes ecoando na distância. Salgada espuma. Areia espessa. Pulgas do mar. A face tisnada do sal e a pele alourada do sol. Vestes garridas.
O latejo da nortada pulsando nos corpos. A avó tecendo renda. Um castelo desmoronado na beira-mar. Os derradeiros contornos das muralhas, capazes de seduzir os sentidos, “os” de cada um de nós, pelo mar adentro, na senda da impermanência. E um moinho, como a clepsidra, que tanto mede o tempo como a espessura das ausências. Mãos areadas.
A conformidade da paisagem. Pinhal antigo. Caruma. O piquenique com hora de começo, mas que não findou. Tios e parentes em magote. Um aconchego instantâneo. O acre paladar das camarinhas. E o jogo das escondidas intercalado por uma batalha de pinhas. Metamorfose da leveza.
O tempo como signo. O apego aos ensinamentos. A voz melancólica das ervas, num ritual convertido na oratória das faltas, dos lapsos, das lacunas, das distâncias, como se o lábio do vento cambiasse o lugar do vazio e do esquecimento. Laivos de uma alma contida nos seus silêncios. A arquitectura disforme dos sonhos e o caminho circular do desejo.
Uma folia indecidida. E o entoar da vontade nas vertigens. Rodopio das lembranças e o véu do entardecer, decaindo para dentro de nós. A toalha sustendo o cansaço. Os pés que resvalam na espia.
Vestígios de um búzio ressoando os hiatos do espanto. A esbatida memória da face do meu Pai, na orla da praia, de cana em punho. Pesca à linha, capturando a lágrima da saudade no gancho ferrugento do anzol. E o fio eterno atado à boia da nossa salvação.
Incertezas nos balbucios do tempo. O amor como coreografia da permanência. Um olhar desembarcado nos reflexos da água, inamovível, recolhendo a matéria das delongas a céu aberto, onde as nuvens se despem de grandezas.
Este é um exercício de ressonâncias: retrato compósito alojado na récita dos sentidos, como um dialecto permanente, marcando compassos insubmissos no coração.
Borranha de fim de tarde. Ocaso.
Fragmentos dos meus cinquenta.