Opinião
Artes Visuais | Leni Riefenstahl, um caso bicudo de estética e política
Helene Bertha Amalie Riefenstahl (1902-2003) foi catapultada para a celebridade devido ao seu envolvimento com Adolf Hitler e com o seu convivente favorito Joseph Goebbels, ministro da propaganda do III Reich
Sexta-feira junto com o Público encontramos sempre o suplemento cultural Ipsilon. Foi num destes cadernos extra que encontrei uma entrevista a Andres Veiel acerca do seu filme Riefenstahl, estreado no Festival de Veneza em 2024. Segundo o autor, o ponto de partida para esta obra cinematográfica foi o acesso a todo o material reunido sobre Leni e sobretudo um olhar crítico que lançou ao documentário trinta anos mais velho The Wonderful, Horrible Life of Leni Riefenstahl, de Ray Müller.
Helene Bertha Amalie Riefenstahl (1902-2003) foi catapultada para a celebridade devido ao seu envolvimento com Adolf Hitler e com o seu convivente favorito Joseph Goebbels, ministro da propaganda do III Reich. Registou em filme a convenção do partido nazi em 1934 e a partir daí, ela e o führer tornaram-se co-dependentes. Ele precisava das suas técnicas inovadoras de captação de imagem, dos seus ângulos peculiares e exagerados, e das suas montagens em pós-produção, que adulteravam e deturpavam a realidade. Ela precisava do seu dinheiro, apenas. Há rumores que se apaixonou por Adolf ainda muito nova quando o ouvia discursar, mas na sua versão da realidade relatada no filme de Müller, apenas se aproximava dele quando as finanças apertavam… hmmmm.
Leni morreu com cento e um anos, depois de sobreviver a Nuremberg que a considerou não cooperante, mas apenas simpatizante do partido nazi, e a uma queda de helicóptero. Para uns foi uma artista naïve, ingénua ao sistema politico, cujo trabalho foi admirado por Andy Warhol e Quentin Tarantino. Para outros foi conscientemente uma das ferramentas utilizadas para ludibriar o povo alemão a acreditar na imagem de um Hitler heróico.
Para Andres Veiel, Leni faz parte da preparação do fascismo, e a recordação que permanece pede um equilíbrio difícil de fazer. Por um lado há uma artista cuja estética é apreciada e valorizada, mas por outro existe uma ligação a algo ideológico muito forte e isso é inadmissível. Para Veiel, “não se pode separar a política da estética”, …e foi esta a questão que me deixou inquieto. Será que não posso mesmo? É que se não puder, tenho aqui um problema. Se vou apenas considerar a arte que se alinha com os meus valores políticos parece-me que vou ficar muito mais pobre. É que são precisamente as que não se alinham em nada comigo, que me excitam mais.
A experiência mostrou-me que quanto mais profundamente olhar para qualquer obra de arte, mais ela se vai distanciar dos meus ideais políticos, e se apenas considero os que alinham, a maior parte das vezes porque não aprofundei ainda o suficiente, num futuro próximo estarei envolto numa micro bolha, de arte que permito a mim mesmo apreciar. Vou ter de repensar toda a minha biblioteca mental, e vou ter de eliminar de lá toda a arte faraónica, todas as esculturas de generais e imperadores romanos, toda a arte europeia construída com o saque do novo mundo americano, toda a arte relacionada com cristianismo… enfim a lista seria interminável.
Se Leni era uma pessoa porreira, não sei, nem me interessa, se Hitler era mesmo o herói que ela fez o povo alemão acreditar que era, isso sei …, não, não era. Mas se os filmes dela de algum modo contribuem para aprendermos mais sobre nós mesmos enquanto seres humanos, não vou deixar de os considerar. Eu gosto de saber o quão baixo pode o ser humano ir, e toda esta história da primeira parte do século vinte para mim é instrutivo como o caraças. O trabalho de Leni Riefenstahl é perverso mas importante, por ser mais uma peça do puzzle. Na verdade não sou grande fã do trabalho dela, nem politicamente, como é óbvio, nem esteticamente, por considerar enfadonho, mas levanta-me esta questão da separação de um do outro, ou não, e isso, eu adoro.