Opinião
Assim vai o Mundo…
O putativo poder do Direito deu lugar ao “Direito” do Poder (e do Dinheiro, se é que há separação entre ambos) e o Mundo sofre, com os “invisíveis”, mais fracos, no “olho do furação”
Meu Caro Zé
Veio-me à cabeça a frase que figura em título da nossa conversa, que introduzia o Jornal de Atualidades que era apresentado no início das prolongadas sessões de cinema na nossa juventude.
Pois bem, para a conversa de hoje não vejo saída que não seja referir umas quantas notícias ou comentários que dominam a informação.
Deixa-me roubar a Paul Krugman, com a devida vénia, uma definição do que ele chamou “billionaire brain”: “essa especial mistura de ignorância e arrogância que ocorre com demasiada frequência nos homens que acreditam que o seu sucesso em acumular riqueza pessoal significa que eles percebem tudo, sem qualquer necessidade de fazer o trabalho de casa”.
Neste campo, emerge a notícia de que, após o lançamento da “Oferta Pública Inicial” de venda de ações da Space X, Elon Musk passou a ter uma riqueza pessoal de cerca de 1,1 biliões (“trillions” em inglês) de US dólares, uma riqueza volátil, ligada ao valor momentâneo das ações, ou seja, quase o quádruplo do PIB de Portugal.
Ele não é um dos “billionaires” é mais de mil “billionaires” e parece estar, assim, “justificado” o seu comportamento. Só que num “podcast” de meados de maio, Paul Krugman a propósito de D. Trump levar consigo E. Musk à China concluía que “Talvez alguma coisa caiba a Elon Musk disto, mas não há nada para o resto de nós que resulte desta essencialmente tributária visita à China”. E cá caímos, como não pode deixar de ser, em D. Trump, cuja arrogância só tem par com a sua ignorância e o total desprezo pelos outros.
Em consequência, a “Democracia na América”, tão cara a A. Tocqueville, está completamente corroída com a “segurança” dos “cheks and balances” praticamente inexistente e o Mundo em convulsão permanente.
O putativo poder do Direito deu lugar ao “Direito” do Poder (e do Dinheiro, se é que há separação entre ambos) e o Mundo sofre, com os “invisíveis”, mais fracos, no “olho do furação”.
Creio que, numa perspetiva de esperança nunca perdida, vale a pena citar o Cardeal Tolentino que, num pequeno livro escreveu, na sequência da Encíclica “Magni ca Humanitas”: “Somos a sociedade da informação, zemos do mundo uma aldeia onde tudo comunica, potenciámos ao máximo a atualidade e as técnicas para a sua difusão, mas permanecemos, em tantos aspetos, cegos e in exíveis. É inevitável que não aprendamos a corrigir com amor e permaneçamos analfabetos de misericórdia?”.
Até sempre
*Texto escrito segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990