Opinião

O Governo é uma fábrica soviética

18 jul 2026 21:00

Quando o Primeiro-Ministro definiu o seu governo como sendo reformista, a medida do sucesso passou a ser o número de mudanças que pudessem encaixar no rótulo de “reforma”

Nos anos 1970, o economista britânico Charles Goodhart escreveu um artigo científico sobre política monetária em que apresentou uma explicação sobre a atuação dos bancos centrais em políticas de controlo de inflação.

Goodhart concluiu que quando um banco central escolhia uma medida específica para objetivo da política, a relação estatística dessa medida com a inflação perdia gradualmente o efeito.

Dito de outra forma, mais genérica, “quando uma medida se torna um alvo, deixa de ser uma boa medida”. Existem exemplos em diferentes áreas – da política monetária à saúde – mas um exemplo conhecido acontecia na União Soviética de planeamento central: os objetivos de produção de algumas fábricas eram definidos em toneladas, o que levava os decisores a preferirem fazer peças desnecessariamente pesadas para cumprir os objetivos.

Lembrei-me deste efeito quando nos últimos tempos vi notícias sobre o caos instalado nos exames nacionais do ensino básico e secundário.

Depois de décadas de um sistema que funcionou de forma fidedigna e previsível, a classificação dos exames nacionais passou a ser feita através de uma plataforma digital, abandonando a classificação em papel.

Novas plataformas apresentam sempre algumas imperfeições, mas o nível de mau funcionamento reportado é surpreendente até para os mais pessimistas.

De tal modo que, perante o pânico instalado, foi necessário adiar a divulgação das notas. A alteração de um sistema com provas dadas e bom funcionamento por outro mais moderno é mais um sintoma da vontade de “reformar” do Governo Montenegro.

Quando o Primeiro-Ministro definiu o seu governo como sendo reformista, a medida do sucesso passou a ser o número de mudanças que pudessem encaixar no rótulo de “reforma”.

Num caso evidente de aplicação da Lei de Goodhart, o Governo faz alterações (na educação, na nacionalidade, tentou fazer no trabalho) tal como uma fábrica soviética que aumenta o peso da roda dentada para cumprir objetivos de produção – mesmo que isso signifique que a roda dentada deixa de funcionar e toda a máquina fica inutilizada.

O impulso pela mudança – normalmente sem ponderar devidamente os efeitos – tornou-se o alfa e o ómega do Governo. Sem vir acompanhado de um objetivo claro, sem ponderar o propósito da mudança. Em vez de pretenderem melhorar, as mudanças tornam-se um fim em si mesmo, como se fosse sempre benéfico mudar.

Mudar para não ficar igual. Mesmo que signifique ficar pior... afinal, sempre muda em relação ao que havia.

Texto escrito segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990