Opinião

Do Politécnico à Universidade: o que está em jogo?

20 mar 2026 21:30

Irá esta mudança traduzir-se, de facto, em maior qualidade académica e melhores oportunidades para os estudantes?

Cresci entre os corredores e gabinetes que hoje fazem parte do Politécnico de Leiria.

Os meus pais estudaram e trabalharam durante décadas no politécnico, então passei lá muitas das minhas tardes em criança.

Em 2019, licenciei-me em Comunicação e Media na ESECS, e foi também ali que, em 2022, comecei o meu percurso como professora.

Tal como eu, existem muitos leirienses, e portugueses por todo o país, cuja história se cruza profundamente com esta instituição.

Para muitos de nós, o Politécnico nunca foi apenas um lugar de estudo.

Foi sempre uma extensão de casa.

É por isso que acompanho com atenção o anúncio da criação da futura Universidade de Leiria e do Oeste.

A proposta do Governo surge como uma estratégia de valorização regional, com a promessa de reforçar a qualificação, atrair talento e responder aos desafios do território.

Entre as mudanças previstas, está a criação de novas estruturas e a adaptação da oferta formativa, mantendo, segundo o próprio, o "cariz politécnico".

Mas no meio do entusiasmo, há perguntas que importam.

Questões que faço enquanto jovem e professora.

Irá esta mudança traduzir-se, de facto, em maior qualidade académica e melhores oportunidades para os estudantes?

Conseguirá responder às necessidades reais da região Centro, que continua a precisar de profissionais qualificados e com forte ligação ao tecido empresarial?

E como se posicionará esta nova universidade num ecossistema já competitivo, face a universidades com décadas de história e reconhecimento?

Há também uma questão mais silenciosa: ao transformar politécnicos em universidades, estaremos a reforçar a ideia de que o ensino politécnico vale menos?

Num país que ainda luta contra o estigma do ensino profissional, esta é uma reflexão que não pode ser ignorada.

Falo com a experiência de quem fez todo o seu percurso em politécnicos, primeiro o de Leiria e, mais tarde, o de Coimbra.

E que encontrou neles uma ligação direta ao mundo do trabalho, metodologias práticas e espaço para desenvolver competências pessoais e profissionais essenciais.

Foi precisamente essa base que me levou a ser seleccionada como Coordenadora Académica no centro em Portugal do SIT Study Abroad, onde se aplica o modelo de experiential learning, uma abordagem centrada na aprendizagem através da experiência, hoje amplamente valorizada a nível internacional.

Talvez a questão que fica comigo não seja apenas "o que vamos ser", mas "o que não podemos deixar de ser".

Porque, no meio das mudanças, há identidades que vale a pena preservar.