Opinião
O Rio Vai Nu
É um defeito que temos demasiadas vezes. Somos rápidos a declarar impossível aquilo que ainda ninguém tentou verdadeiramente fazer
Ainda hoje, quando passo junto ao Lis, não vejo apenas um rio. Vejo uma infância inteira. Vejo tardes intermináveis entre as Fontes e as Cortes. As bicicletas encostadas às árvores. Os mergulhos junto à antiga Farlis ou perto da nora, onde a água era sempre fresca. Vejo os amigos, os joelhos esfolados, a roupa a secar ao sol e, inevitavelmente, o puxão de orelhas por chegar tarde para o jantar.
Entretanto, crescemos. E Leiria cresceu connosco. Hoje percorrem-se as suas margens. Há árvores, pontes, gente a caminhar, famílias a passear. Seria profundamente injusto dizer que nada foi feito. Foi. E bem.
Mas os rios nunca são obras acabadas. Há sempre mais uma margem para recuperar, mais uma árvore para plantar, mais uma ponte para aproximar pessoas, mais uma razão para ficar junto da água em vez de simplesmente passar por ela.
Há uns anos lancei uma ideia que muitos acharam extravagante: criar uma pequena onda permanente no Lis, inspirada na do rio Eisbach, em Munique. Nunca foi uma obsessão pelo surf. A onda era apenas um pretexto para obrigar a cidade a olhar para o rio de outra maneira.
Na altura, Gonçalo Lopes, actual presidente da Câmara de Leiria, então vereador da Cultura, fez aquilo que tantas vezes falta a quem decide: ouviu. Não prometeu milagres, mas aceitou perceber se a ideia fazia sentido.
Fizeram-se pequenos testes hidráulicos no Marachão, reuni com engenheiros, com surfistas, troquei ideias com quem participou no desenvolvimento da onda de Munique e tentou-se perceber se o Lis poderia acolher um projecto semelhante. Infelizmente, alguns já tinham aparecido vestidos de luto antes mesmo de o projecto morrer. É um defeito que temos demasiadas vezes. Somos rápidos a declarar impossível aquilo que ainda ninguém tentou verdadeiramente fazer.
O meu interesse nunca foi financeiro, nem pessoal. Era apenas o de um cidadão que gostava de ver o rio voltar a ser um lugar vivido. Porque basta olhar para o que aconteceu noutros sítios. Bilbau reencontrou o Nervión.
Lyon voltou a viver o Ródano. Coimbra aproximou-se novamente do Mondego. As Ribeiras do Leça mostraram que até um rio improvável pode ganhar uma nova vida. Nenhuma destas cidades fez tudo de uma vez. Mas todas compreenderam que um rio vale muito mais quando pertence às pessoas. É isso que transforma um rio.
Talvez nunca exista uma onda no Lis. E talvez isso seja o menos importante. Falta-nos, por vezes, essa virtude discreta da persistência. A capacidade de insistir, de aceitar que as boas ideias precisam de tempo para amadurecer.
De resistir ao primeiro «isso nunca vai resultar». E de perceber que muitos dos exemplos de que hoje nos orgulhamos começaram por parecer impossíveis. Os rios não gostam de andar nus. Vestem-se de árvores, de pontes, de canoas, de pescadores, de esplanadas voltadas para a água, de crianças a brincar, de cultura, de arte e de sonhos. O Lis já não vai tão nu como ia.
Felizmente. Mas continua a precisar de quem o vista todos os dias. Porque um rio não se veste sozinho. É preciso quase uma obsessão por ele para que, em todos os dias do ano, possa vestir-se com a dignidade que merece.