Editorial
O vírus da contradição
Há quem continue a criticar a máscara como se fosse uma mordaça e a vacina como se fosse um mito científico
Há imagens que se repetem todos os invernos: salas das urgências hospitalares cheias, macas enfileiradas nos corredores, profissionais de saúde empenhados em tentar pôr vírgulas onde a realidade insiste em colocar pontos finais. Este ano, o cenário formou-se mais cedo, com a gripe a antecipar-se, como se tivesse pressa em provar que continua a mandar no calendário.
Na nossa região, a actividade gripal já assume padrão epidémico, desta vez alimentada pelo influenza A, incluindo o subtipo H3N2, um vírus com o qual praticamente não nos cruzámos no ano passado e que, por isso, nos torna mais vulneráveis.
Os responsáveis pela Unidade Local de Saúde da Região de Leiria responderam com cautela e por antecipação: activaram o plano de contingência, declararam o uso obrigatório de máscara nas unidades de saúde e adiaram as cirurgias não urgentes, para proteger profissionais e utentes e libertar camas.
Ao mesmo tempo, continuam a insistir na vacinação, sobretudo em idosos e doentes crónicos, os primeiros a pagar a factura das eventuais escolhas colectivas. Em declarações ao nosso jornal, uma médica de saúde pública recorda que a imunização, nestes períodos, é uma das armas mais potentes. Não porque evite a gripe, mas porque ajuda a reduzir a curva do número de casos e pode dar mais tempo ao sistema de saúde para ele próprio respirar.
Mas do lado de fora, há quem continue a criticar a máscara como se fosse uma mordaça e a vacina como se fosse um mito científico. Provavelmente, muitos dos que desvalorizam estas medidas serão os primeiros a indignar-se com as horas de espera no hospital, com a falta de camas, com as cirurgias adiadas.
Aqui chegados, talvez a verdadeira pergunta não seja se a máscara incomoda ou se a vacina é perfeita, mas se faz sentido continuar a criticar as ferramentas que existem para que o Inverno não seja uma roleta russa. Entre a opinião e a evidência, entre o cansaço e a responsabilidade, há uma dúvida legítima que se instala: será que ainda faz sentido discutir se a máscara condiciona a liberdade ou se a vacina é um capricho da ciência?