Opinião
Pinhal de Leiria e a memória curta do Estado
O Pinhal de Leiria, durante séculos uma resposta natural de proteção do território, precisa hoje de voltar a ser um escudo vivo para o futuro
A tempestade Kristin entrou pelo litoral e atingiu a nossa região, mostrando como o vento vindo do Atlântico encontrou pouca resistência para avançar pelo território, destruindo casas, empresas, infraestruturas e afectando populações, expondo fragilidades ambientais e territoriais há muito identificadas, mas que o país deixou cair no esquecimento.
Durante séculos, a resposta parcial a essa ameaça chamou-se Pinhal de Leiria.
Todos crescemos com a consciência de que o Pinhal tinha como função conter o avanço das dunas, travar as areias, proteger campos agrícolas e povoações.
Hoje percebemos que o Pinhal não era apenas uma floresta, mas uma infraestrutura natural de protecção territorial.
Muito antes de se falar em "soluções baseadas na natureza", Portugal já tinha ali uma das suas maiores obras de inteligência territorial: uma muralha viva entre o mar e o interior, capaz de amortecer ventos, fixar solos, regular a paisagem e proteger comunidades.
Essa muralha foi destruída pelos incêndios de Outubro de 2017, agravados pela tempestade Leslie em 2018, e desde então o território nunca mais recuperou o seu equilíbrio.
O Estado respondeu com relatórios, programas de recuperação, fundos europeus e acções de rearborização. Houve avanços, mas permanece a pergunta essencial: foi suficiente?
O Observatório Técnico Independente identificou atrasos, insuficiências estruturais e dificuldades de articulação institucional no processo de recuperação da Mata Nacional de Leiria.
A Kristin mostrou que a recuperação florestal não pode ser vista apenas na lógica estatística de hectares plantados.
Quando uma barreira natural desaparece, o território altera-se, o vento encontra menos resistência, a paisagem perde densidade ecológica e a vulnerabilidade aumenta.
Não se trata de afirmar que, se o Pinhal estivesse intacto, a tempestade não teria provocado danos.
Mas é legítimo questionar se um território mais arborizado, resiliente e melhor gerido não teria reagido de outra forma.
A verdadeira questão é hoje outra: que estratégia está a ser desenvolvida para o futuro da Mata Nacional de Leiria e que Pinhal está a ser reconstruído?
Um pinhal pensado numa lógica administrativa, medido em hectares intervencionados e relatórios produzidos, ou uma verdadeira infraestrutura ecológica de protecção territorial?
A Mata Nacional de Leiria exige uma política de Estado, visão de longo prazo, monitorização, envolvimento dos municípios, do Politécnico de Leiria e das comunidades locais.
A Kristin mostrou que o problema esteve na força do vento vindo do mar, mas sobretudo no vazio que encontrou em terra, lembrando-nos que o Pinhal de Leiria, durante séculos uma resposta natural de protecção do território, precisa hoje de voltar a ser um escudo vivo para o futuro.