Opinião

Roubar madeira e outras peripécias

6 mar 2026 16:32

A tristeza passou a bruta inquietação ao ver-me saqueado das árvores tombadas pelo vento, que serviriam – uma vez vendidas – para custear nova plantação

É a primeira vez que volto a esta página no pós-Kristin. Sei que de formas diferenciadas, todos fomos tocados pela intempérie. Sei que uma deprimente nebulosa paira ainda por toda a região, e que ninguém fora daqui imagina a verdadeira dimensão dos danos causados. No meu caso particular – sempre distante do mundo industrial que acolhe tanta da nossa simpática população –, para além dos carros, telhados, tetos, e das infiltrações aquáticas que insistem em não desaparecer, senti de forma especialmente gravosa a destruição dos pinhais que há décadas me acompanhavam.

A tristeza passou a bruta inquietação ao ver-me saqueado das árvores tombadas pelo vento, que serviriam – uma vez vendidas – para custear nova plantação. Seguramente que os desesperados que agora roubam lenha e madeira têm motivos muito válidos para o fazer, mas esta moda – identificada em todo o território afetado – vai limitar bastante qualquer esforço de reabilitação do coberto florestal.

As áreas silvestres arriscam ficar ainda mais desordenadas, com as acácias e o mato a dominarem completamente uma paisagem transformada em fértil pasto para mais incêndios. Se esta longa época das chuvas alguma vez terminar, estaremos seguramente condenados a lidar com fogos estivais nunca vistos. Em breve veremos se o habitual regresso dos asfódelos nos indica a vida eterna, ou a morte antecipada da paisagem.

Por agora, ensaia-se um regresso à normalidade, ainda que sem semáforos na Marquês e com o especial martírio da população da Bidoeira de Cima. Cafés, restaurantes e muitos lugares de recreio noturno estão já abertos, para quem gosta de sair e investir em comes e bebes. Quando a tempestade nos retirou o sortilégio do Carnaval, ficou garantida uma experiência quaresmal mais plena (num calendário este ano coincidente também com o jejum do Ramadão), esperemos que a anunciada Páscoa sirva o seu desígnio e garante a chegada de novos e melhores ventos.

Texto escrito segundo as regras do Novo Acordo Ortográfico de 1990