Opinião
Será que a confiança também se digitaliza?
Vivemos uma aceleração da transição digital impulsionada pela Inteligência Artificial sem paralelo na história. Mas esta não é apenas uma revolução tecnológica — é, sobretudo, uma transformação das relações entre pessoas, entre cidadãos e instituições e entre a sociedade e o conhecimento.
O verdadeiro desafio não é tecnológico, é humano e assenta na confiança.
No ensino superior, esta transformação altera profundamente a relação entre professores e estudantes, entre investigadores e sociedade, transformando igualmente a forma como produzimos, validamos e partilhamos conhecimento.
Exige pensamento crítico, ética, inclusão e uma utilização responsável da IA.
A tecnologia deve reforçar estas relações e a universidade do futuro continuará a ser feita de pessoas para pessoas.
O mesmo acontece nos serviços públicos. A digitalização é inevitável e desejável, mas só constitui progresso se for inclusiva.
Num país onde uma parte significativa da população, sobretudo a mais idosa, continua a ter reduzida literacia digital, não podemos criar novas desigualdades em nome de uma inovação tecnológica que esqueça que há cidadãos que continuam a precisar de falar com pessoas.
A tecnologia deve aproximar os serviços públicos dos cidadãos, nunca afastá-los.
A confiança institucional constrói-se ao longo de anos e pode perder-se em poucos dias.
É por isso que o recente processo de digitalização da avaliação dos exames nacionais merece reflexão.
Portugal construiu, ao longo de quase 50 anos, um sistema de acesso ao ensino superior reconhecido pela sua credibilidade.
Modernizar era necessário, mas apenas com plataformas maduras, amplamente testadas e resilientes.
Quando a tecnologia compromete a confiança, deixa de ser um avanço para passar a ser um problema.
Enquanto responsável político pela tutela, o Ministro Fernando Alexandre tem responsabilidade máxima pelos acontecimentos que abalaram a confiança de estudantes, famílias, professores e instituições.
Recuperá-la será mais difícil do que desenvolver qualquer plataforma informática.
Porque, no final, o sucesso da transição digital nunca será medido pelo número de plataformas que implementamos, mas pela confiança que conseguimos preservar e reforçar.