Editorial

Tocar a rebate

5 mar 2026 08:01

Sem uma intervenção rápida e profunda, o risco de fogos devastadores afigura-se uma probabilidade inquietante

A tempestade Kristin deixou um rasto de destruição sem precedentes na região de Leiria, também na floresta. Estima-se que tenha derrubado entre cinco a oito milhões de árvores, criando um cenário de risco extremo para os próximos meses. O que resta no solo não é apenas um prejuízo económico, mas um volume preocupante de combustível florestal altamente inflamável, que levanta um enorme sinal de alerta para o próximo Verão.

Como se pode deduzir do trabalho de abertura deste jornal, a realidade operacional no terreno é alarmante: equipas locais relatam que a limpeza de apenas 100 metros de caminho florestal pode demorar meio dia de trabalho intensivo. Com os acessos bloqueados e o piso das vias destruído pelas raízes das árvores caídas, a capacidade de manobra dos carros de combate a incêndios está seriamente comprometida. Sem uma intervenção profunda até Maio, o risco de fogos devastadores afigura-se uma probabilidade inquietante.

Esta necessidade urgente de prevenção exige uma resposta que ultrapasse a capacidade individual de proprietários e autarquias, tornando imperativa a mobilização total de recursos, como defende a Protecção Civil. É urgente a transferência de maquinaria pesada do ICNF e de equipas de sapadores de regiões não afectadas.

No plano humano, é desejável o envolvimento do Exército e a integração de reclusos em regime aberto para acelerar a limpeza das matas. Para financiar estas operações, o Governo prevê a utilização de fundos do PRR e a criação de sistemas de vouchers para apoiar os proprietários na contratação de serviços.

Olhando para o futuro, vale a pena ter em atenção as sugestões da associação ambientalista Zero, que propõe a implementação de um modelo de “mosaico” na paisagem, com a criação de descontinuidades territoriais e a diversificação de espécies, para aumentar a resiliência a novas intempéries.

Que não se desperdice a janela de oportunidade dos próximos dois meses para agir e prevenir.