Opinião

Três alegorias de Verão

18 jun 2026 21:30

Há indivíduos desta espécie que violentam os seus semelhantes por não apreciarem o seu local de nascimento

(I) Houve um dia em que uma pessoa da aldeia comprou um modelo do carro-espacial. Logo os vizinhos quiseram ter o mesmo modelo, mas de cores diferentes; no espaço de sete meses e meio as ruas da aldeia ficaram repletas de carros-espaciais, todos iguaizinhos excepto na cor.

As catorze pessoas da aldeia que se recusaram a seguir a moda foram dizendo que o dono daquela marca apoiava certos extremismos e que ao comprar aqueles carros as pessoas estavam a apoiar (com dinheiro, que é o apoio que realmente conta) um líder que promovia o ódio.

Os donos dos carros-espaciais diziam que nada disso importava porque os carros eram bons e bonitos. Até que um dia os catorze começaram a dizer que o dono da marca iniciara uma feroz campanha contra as pessoas carecas. E os donos dos carros-espaciais logo responderam: que importa isso, se nesta aldeia todos somos cabeludos?

(II) Era uma vez uma floresta onde se vivia mais ou menos em paz. Até que um dia chega uma cobra que nunca - mas mesmo nunca - se cala; o barulho atrai outras cobras, e juntas tornam-se ensurdecedoras.

As cobras-que-não-se-calam ganham confiança e começam a ser agressivas, mas apenas com os animais mais fracos do que elas próprias.

Os camaleões, que governam a floresta, sentem o seu poder ameaçado e logo adoptam a sua estratégia habitual: tentam passar despercebidos, o que no caso específico significa imitar as cobras-que-não-se-calam .

A barulheira aumenta e deixa de se perceber quem realmente manda na floresta, se os camaleões ou as cobras, tal é a semelhança das suas barulheiras. E com tanta confusão, todos os outros animais se distraem. É por isso que ninguém repara que os três abutres (os donos da floresta) se aproveitam da distracção provocada pelas cobras e alimentada pelos camaleões para vender a floresta aos madeireiros.

(III) O relatório do técnico é claro: “O planeta é dominado por uma espécie execrável. Vão produzindo umas inovações que consideram muito avançadas, mas que na verdade são infantis; baseando-se na suposta superioridade dessa tecnologia e da sua própria evolução enquanto criaturas auto-conscientes, desconsideram todas as restantes espécies e colocam em risco a sobrevivência do planeta. Mas mesmo entre si têm comportamentos discriminatórios e agressivos não compatíveis com o actual estado civilizacional do universo.

Cito apenas um exemplo: há indivíduos desta espécie que violentam os seus semelhantes por não apreciarem o seu local de nascimento. Recomendo que não seja feita qualquer aproximação por parte da sociedade das civilizações e que se permita que esta espécie definhe e se auto-extinga, conduzida pela sua arrogante imbecilidade.”

O burocrata que analisa este relatório coloca-lhe um carimbo, dando despacho positivo, e sente-se feliz por não ser desses técnicos que têm de explorar territórios tão selvagens e depressivos. Suspira. Sente que o trabalho se arrasta, que tarda em chegar a hora de encerrar a repartição. Suspira de novo. Talvez saia mais cedo, precisa de comprar tinta para o carimbo.