Opinião
Trocado por miúdos | Da democracia à tirania
Quando uma parte da sociedade governa exclusivamente em benefício próprio, quando ricos e pobres se encaram como adversários e quando desaparece o espaço de moderação entre os extremos, a estabilidade política começa a ceder
Vivemos num tempo politicamente estranho. Nunca tivemos tanto acesso à informação, tanta liberdade para falar, escolher e contestar e, paradoxalmente, parece cada vez mais difícil entendermo-nos. A autoridade é permanentemente questionada, as instituições perdem confiança, o debate público transforma-se em confronto e a indignação tornou-se combustível político. Nas redes sociais, todos falam e poucos escutam. Multiplicam-se movimentos de revolta, discursos antissistema e líderes que prometem respostas simples para problemas cada vez mais complexos.
Perante este cenário, fui tentar perceber se o que hoje vivemos é realmente novo: se outras sociedades livres atravessaram períodos de desordem e que caminho seguiram depois. E foi aí que recuei cerca de 2.400 anos, até à Grécia Antiga. Platão, um dos primeiros grandes críticos da democracia, descreveu um percurso inquietante. Para ele, quando a liberdade deixa de reconhecer limites, a autoridade é rejeitada, as hierarquias perdem legitimidade e a ordem dá lugar à desordem. O problema é o que vem a seguir: cansada do caos, a própria sociedade começa a desejar alguém capaz de repor a ordem. E é precisamente aí que Platão encontra o caminho da democracia para a tirania.
Platão deixa-nos o alerta. Aristóteles, seu discípulo na Academia, ajuda-nos a procurar o equilíbrio. Menos desconfiado da participação política, percebeu que nenhum regime se mantém apenas pelas suas regras. Quando uma parte da sociedade governa exclusivamente em benefício próprio, quando ricos e pobres se encaram como adversários e quando desaparece o espaço de moderação entre os extremos, a estabilidade política começa a ceder. Por isso valorizava uma classe média numerosa, suficientemente distante dos extremos para funcionar como elemento de equilíbrio. Uma sociedade profundamente dividida é também uma sociedade politicamente frágil.
E depois de ler Platão e Aristóteles, torna-se difícil não olhar para Portugal. Porque o que ambos descrevem deixou, para mim, de parecer apenas uma reflexão com mais de dois mil anos. Platão fala-nos de uma sociedade onde a liberdade perde os limites, a autoridade se desgasta e, no meio da revolta, aparece o demagogo: aquele que percebe o descontentamento, alimenta-o e se apresenta como a voz do povo contra tudo o que o povo passou a rejeitar. Esse demagogo já existe entre nós. E Aristóteles acrescentaria outra peça: quando a política deixa de procurar o bem comum e passa a servir os interesses de quem governa ou de uma parte da sociedade, o regime desvia-se da sua finalidade. Podemos discutir em que ponto do caminho estamos. O que me parece difícil é negar a semelhança entre o caminho que eles descreveram e alguns dos sinais que hoje encontramos na nossa democracia.