Sociedade
Aprender sem pressas, no ensino doméstico ou em comunidade
O número de alunos em ensino doméstico cresceu neste ano lectivo. A região centro concentra o segundo maior bloco do país. Também há novas comunidades de aprendizagem que fazem a diferença
Aprender sem pressas, sem testes, sem o toque estridente da campainha, sem professor, com a mãe ou o pai a fazer esse papel. É essa a realidade de 570 crianças em Portugal, algumas integradas em comunidades de aprendizagem. O número já foi mais elevado, nos anos da pandemia, depois baixou, quando em 2021 um decreto-lei trouxe uma premissa: um dos progenitores tem obrigatoriamente de ser licenciado.
Pela primeira vez desde então, os números subiram no ano lectivo que agora termina. É em Lisboa que continuam a registar-se mais alunos em ensino doméstico, e logo a seguir a Região Centro, com 86 alunos, e só depois o Porto, com 63 crianças a estudar a partir de casa.
No distrito de Leiria não chegam às duas dezenas. Os números reflectem apenas os alunos matriculados em Portugal, com tutoria de uma escola ou agrupamento nacional. Porque haverá muitos mais que, vivendo cá, estão matriculados nos países de origem, como é o caso da maioria dos filhos das comunidades estrangeiras.
Aprender sem pressas, sem testes, sem o toque estridente da campainha, sem professor, com a mãe ou o pai a fazer esse papel. É essa a realidade de 570 crianças em Portugal, algumas integradas em comunidades de aprendizagem.
O número já foi mais elevado, nos anos da pandemia, depois baixou, quando em 2021 um decreto-lei trouxe uma premissa: um dos progenitores tem obrigatoriamente de ser licenciado. Pela primeira vez desde então, os números subiram no ano lectivo que agora termina. É em Lisboa que continuam a registar-se mais alunos em ensino doméstico, e logo a seguir a Região Centro, com 86 alunos, e só depois o Porto, com 63 crianças a estudar a partir de casa. No distrito de Leiria não chegam às duas dezenas.
Os números reflectem apenas os alunos matriculados em Portugal, com tutoria de uma escola ou agrupamento nacional. Porque haverá muitos mais que, vivendo cá, estão matriculados nos países de origem, como é o caso da maioria dos filhos das comunidades estrangeiras.
O que leva, afinal, uma família a optar pelo ensino doméstico, onde as crianças estão sujeitas apenas a prestar provas anuais à tutela do Ministério da Educação? Na maioria dos casos, são razões de profunda discordância com o sistema de ensino. Foi o caso de Anabela Cordeiro, mãe de duas crianças com 12 e 7 anos anos de idade, residente no limite do concelho de Pombal com o da Figueira da Foz. Ao cabo de uma carreira profissional na área dos Recursos Humanos em grande empresas, em 2019 trocou Lisboa pela terra natal, uma aldeia da freguesia de Marinha das Ondas.
“Desde que pensei em ter filhos sabia que não queria vê-los enclausurados num edifício que, na maioria das vezes, tem grades à volta. Como se fosse uma prisão”, conta . “Para não cair na tentação de seguir um ‘guião’, nos anos anteriores nem sequer fui levantar os manuais”, recorda. O certo é que, logo no primeiro ano, quando ele chegou à escola onde a professora da tutoria o aguardava, na vila de Paião, sabia ler como nenhum dos outros. Anabela tentou criar uma comunidade de aprendizagem na aldeia, mas acabou por desistir, perante a falta de entusiasmo e aderentes.
À volta, familiares, vizinhos e amigos continuaram a rotulá-la por não levar os filhos à escola. A ela cresceu-lhe a certeza de “estar a fazer o melhor, respeitando e estimulando a criatividade e a formação a diversos níveis ” do filho, primeiro, e agora da filha. Nesta altura, o rapaz conclui o 6.º ano de escolaridade numa escola convencional, o Instituto D. João V, no Louriçal, onde ingressou no ano passado. Mas não foi de todo fácil a adaptação nos primeiros dias. Por sorte, há muito que a escola aboliu o toque da campainha, um dos efeitos negativos relativos por muitos alunos que fazem a transição.
Anabela acabou por se dedicar profissionalmente a esta área. Além das AEC (Actividades de Enriquecimento Curricular) numa escola básica da região, dá apoio a uma comunidade de aprendizagem em Coimbra. Leva a filha com ela nessas manhãs, e assim integrou-a no grupo. “Ela e os outros meninos vão à piscina de manhã, como deveriam ir todos, e não ao final do dia, já cansados”.
De resto, é uma das dificuldades que sempre sentiu: as actividades estão todas pensadas para depois da escola, ao final do dia. O filho sempre frequentou aulas de música numa Filarmónica e treinos de futsal num clube da região, garantindo entrosamento e socialização, uma das lacunas por vezes apontada ao ensino doméstico. “O sistema de ensino está completamente desajustado, é castrador. À criança é imposto que aprenda o que o professor quer.
No fundo, está a dizer-lhe que não tem outra capacidade", considera Anabela, que não compreende como é que a escola continua a funcionar nos mesmos moldes em que foi criada, ao tempo da revolução industrial, então com outros intuitos: “a ideia na altura era formar gente que fosse capaz de entrar numa linha de produção. Até a própria campainha simboliza isso. Hoje precisávamos de uma escola com liberdade de movimentos e de pensamento. Eu costumo dizer que a escola é um local onde vão adultos trabalhar e por acaso vão lá crianças”, sublinha, ela que estimula e treina os filhos para aprenderem experienciando. As viagens de comboio pelo país, as visitas aos monumentos, as idas às compras, tudo está envolto em exercícios de matemática, história, geografia ou ciências. Antes disso, preparou-se.
“Fiz uma formação em alfabetização quântica”, revela. Ao cabo de todos estes anos, acredita que a grande diferença está na liberdade individual dos filhos. “Uma criança só aprende quando se apaixona. E a primeira paixão é a família. Por isso partimos da árvore genealógica. Quando ela sente que tem o seu lugar e está segura, tudo é mais fácil”.
Janelas abertas na Caranguejeira re Vestiaria
Mónica Santos despertou para a importância de diversificar horizontes no ensino quando se tornou mãe. Engenheira química de formação, acabou a trabalhar na área da Educação, numa creche, frequentando várias acções de formação na área. “Desde que fui mãe, cresceu ainda mais esse bichinho”, conta ao JORNAL DE LEIRIA a fundadora do espaço Entre Brisas - Educar com o Coração, o Centro de Aprendizagem e Natureza na aldeia de Caldelas, freguesia da Caranguejeira. Os filhos de Mónica têm agora 7 e 11 anos, frequentaram a escola de Colmeias, no ensino regular, mas há três anos esta mãe começou a pensar mais a sério em construir uma comunidade de aprendizagem que os incluísse. Até então, era projecto que estava só nos seus sonhos.
“Nessa altura, o meu marido foi trabalhar para o estrangeiro, e decidi vender a casa e encontrar um espaço que se adequasse ao que imaginava, um projecto como acabámos por criar”. Ali, no Entre Brisas, actualmente frequentado por crianças entre os três e os dez anos de idade, há palavras de ordem para pôr em prática: “acolhimento, respeito, carinho, muita individualidade. O foco principal é a criança, a natureza e o meio envolvente”, explica Mónica Santos, numa altura em que prepara o espaço para acolher os mais pequenos, já no próximo ano lectivo, a partir dos 18 meses e até aos 10 anos.
O Entre Brisas - Aprender com o Coração assume-se como “um centro de ATL não formal”. A maioria das crianças não está em ensino doméstico, frequenta o ensino regular, mas “mesmo estando numa escola convencional encontra aqui outra forma de se relacionar com os outros e com o mundo à volta”, acrescenta a fundadora, numa altura em que o Centro ainda não completou um ano de actividade. Ao longo deste ano zero, como lhe podemos chamar, Mónica teve tempo para colocar em prática várias metodologias, como as que são seguidas na pedagogia Waldorf ou na Forest School. Ali, no espaço inserido no campo, “as crianças fazem os trabalhos de casa ao ar livre, sempre que possível”.
Neste ano lectivo foram 15, ao todo, algumas no âmbito das explicações e apoio escolar. O Entre Brisas também recebe crianças durante as interrupções escolares, e por isso nos meses que se aproximam serão mais a partilhar experiências. “Fazemos oficinas de costura, carpintaria, cerâmica. Acreditamos que a escola é muito importante, mas o ser e saber ser também é muito importante”, sublinha Mónica Santos.
As crianças também aprendem a cuidar da horta, colher legumes e frutas, a preparar as próprias refeições, a construir brinquedos em madeira, entre outras actividades. Margarida Cardoso começou a aventura de um espaço de aprendizagem alternativo há quatro anos. O Bosque dos Pica-paus nasceu na Vestiaria, às portas de Alcobaça, da necessidade de respostas para “uma mãe insatisfeita com a escola convencional”, como conta a própria ao JORNAL DE LEIRIA.
Na verdade aconteceu quando a mais velha das duas filhas entrou para o primeiro ciclo (as meninas têm agora dez e seis anos) e a família se deparou com “muitas restrições”. Mas toda esta jornada começou muito antes, afinal. Margarida vinha da formação em guia da natureza, um trabalho muito ligado ao turismo que só deixou quando chegou a maternidade. Ao mesmo tempo,a Forest School começou a crescer em Portugal: uma formação específica em oportunidades para o desenvolvimento holístico através de sessões regulares. Trata-se de um programa de longa duração que se baseia no brincar, na exploração e no contacto com riscos controlados. Desenvolve a confiança e a autoestima através de experiências práticas em ambiente natural.
Margarida inscreveu-se numa formação e sentiu, desde logo, que a sua vida mudara ali. “Foi muito transformador viver essa experiência”, conta, ela que já acreditava na sensibilidade dos educadores mas cimentou-a no contacto com projectos muito individuais. Decidiu então avançar para o seu próprio projecto, depois de conhecer alguns da região, particularmente nas Caldas da Rainha. “Começámos por fazer encontros de famílias, aqui em Alcobaça”.
Ao mesmo tempo, ia visuitando outros projectos ao longo do país. No primeiro ano, quando encontrou o espaço ideal, no meio do campo, não avançou logo para o acolhimento em homeschooling. Actualmente já conta com algumas nesse registo. Ali, naquele pedaço de floresta, convivem no máximo 12 crianças.
“Algumas não vêm todos os dias”, explica. A responsável do Bosque descreve-o como “uma procura, um retorno às raízes, à natureza, à possibilidade de construir um Eu próprio”. São grupos pequenos, e isso permite a individualização de cada criança. “Trabalhamos muito com a espontaneidade”, enfatiza, certa de que “ a individualidade só é possível dentro de um todo, porque acabamos por ser como uma tribo”.
Para chegar ao Bosque dos Pica-Paus é preciso percorrer um caminho florestal. E aí começa a abordagem diferente, permitindo fazer o caminho com tempo, ao invés das correrias matinais que caracterizam a chegada às escolas convencionais. Margarida também promove campos de férias, sempre com o objectivo maior de “dar tempo para o ócio e para o lazer”. Nessas alturas, quando chegam ao Bosque crianças vindas das escolas e do ensino regular, “vemos muita diferença”. Ao fim de uns dias, é notória a forma como se relacionam entre si e com a natureza. “É preciso darmos tempo a cada uma delas. Que a infância tenha tempo, que cada um possa ser infantil”, frisa.
Foi a Escola da Ponte, popularizada pelo professor José Pacheco (há muitos anos radicado no Brasil), que atraiu o académico Adriano Félix, em 2018. O professor brasileiro atravessou o oceano para encontrar as raízes do modelo que o português de Santo Tirso desenvolveu no final dos anos 70. Depois de conhecer o projecto inspirador, acabou por fazer doutoramento sobre o Currículo Democrático, um modelo em que o aluno participa das escolhas na sala de aula. Adriano passou os primeiros anos em Portugal na coordenação da Comunidade das Cerejeiras, em Penela, no distrito de Coimbra, mas há três anos mudou-se para uma escola que teve oportunidade de ajudar a construir de raiz: a Prunus Internacional School, em Sintra. É uma escola privada, mas devidamente enquadrada pelo ensino regular, onde “aprender nasce também da liberdade de escolher”.
“O modelo de currículo é compartilhado com a criança, em que ela também escolhe dentro desse processo de aprendizagem, ela também participa com muita escuta e ao mesmo tempo com muita fala, com muita comunicação”, explica Adriano Félix. O professor e investigador acredita que seria “totalmente viável” aplicar o modelo ao ensino público. “Mas para isso é preciso coragem”, admite, recordando que, afinal, a escola da Ponte sempre foi uma escola pública, onde José Pacheco teve a ousadia de aplicar um modelo sem avaliações, há quase 50 anos. Na escola de Sintra, os alunos têm seis diciplinas de base, e depois podem escolher mais oito. Entre essas conta-se, por exemplo, Tempos Livres ou Arte. A todos é comum, desde o primeiro ciclo, a Filosofia, que Adriano Félix reputa de extrema importância.
Laboratório, Floresta ou Permacultura são também disciplinas, que envolvem os alunos desde tenra idade. Mais uma vez, o professor insiste na possibilidade de o fazer em ambiente de escola pública, tanto mais que já visitou algumas em Espanha, onde o modelo acontece. “É preciso entender que a escola não é um sistema fechado, pelo contrário, ela pode se expandir, ela pode ser flexível e testar, e colocar-se à disposição para que os alunos possam experimentar, participar do que lá acontece juntamente com os professores. É isso o currículo democrático”.