Viver
“Desejo secretamente desligar o telemóvel mais vezes. O mundo há-de sobreviver”
Sofia Francisco, autarca na Junta de Freguesia de Maceira, Leiria
Já não há paciência... para quem fala mal dos imigrantes. Custa-me ouvir. E muitos de nós fomos emigrantes ou temos familiares que o foram.
Detesto... quem abandona os animais. Não há desculpa que me convença.
A ideia… de poder dormir todos os dias uma pequena sesta depois do almoço seduz-me. Talvez resolvesse mais problemas do que muitas reuniões.
Questiono-me se... as pessoas que dizem ‘estás tão gorda, tão magra, tão cansada, tão envelhecida...’ percebem que isso não é sinceridade, mas sim falta de respeito. Não percebo porque é que temos tanta facilidade em criticar e tão pouca em elogiar.
Adoro... estar em casa com o meu marido, filhos e cadelas, sem pressas. E já descobri que fazer rigorosamente nada é um excelente plano.
Lembro-me tantas vezes... da paz que me dava ficar a ver os meus filhos dormir. Hoje são adultos, mas continuo, de vez em quando, a espreitá-los enquanto dormem.
Desejo secretamente... desligar o telemóvel mais vezes. O mundo há-de sobreviver.
Tenho saudades... das aulas de condução que o meu pai me dava. “Cuidado, não te encostes tanto berma, Sofia.” No carro éramos só nós os dois. Morreu há treze anos. Ainda me faz falta todos os dias.
O medo que tive... na noite de 28 de Janeiro. Quem ouviu o vento, penso, perceberá.
Sinto vergonha alheia… quando vejo alguém tratar mal outra pessoa. Num restaurante, numa loja, na escola... em qualquer lado.
O futuro... a Deus pertence, ensinou-me a minha mãe. Eu gosto de acreditar que também depende de todos nós.
Se eu encontrar… um dia o segredo para dormir descansada sem fazer listas mentais, juro que o partilho.
Prometo… que vou voltar a ler mais. Tenho uma pilha de livros por ler que já começa a olhar para mim com ar de reprovação.
Tenho orgulho... em ser neta da Avó Perpétua. Foi parteira, cozinheira, costureira e, muito antes de eu saber o que significava a palavra, talvez tenha sido a primeira feminista que conheci. Não sabia ler nem escrever, mas a sua dignidade, a forma como ajudava os outros e o conselho que me deu aos dezoito anos - não deixes que homem nenhum te trate mal - marcaram-me para sempre. Trazer um pouco dela em mim é um dos maiores orgulhos da minha vida.