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Fecho das termas e pandemia matam negócios em Monte Real

22 abr 2021 14:48

Motor económico da vila, as termas de Monte Real encerraram há sete anos quebrando todos os negócios que delas dependiam. A pandemia leva agora o resto da esperança e, para muitas unidades hoteleiras, fechar portas é a única opção

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A dependência de um único factor de atracção tem feito grandes estragos
Ricardo Graça
Daniela Franco Sousa

Quase nada resta do tempo em que os passeios eram demasiado pequenos para acolher os muitos turistas que formigavam pela vila de Monte Real.

Até fecharem, em 2014, as termas faziam pulsar não só os hotéis, mas também os restaurantes, os cafés e todo o pequeno comércio local, que autenticamente gravitava à sua volta.

Se o encerramento das termas já tinha deixado a vila a meio gás, a chegada da pandemia, com dois confinamentos a acontecer num curto espaço de tempo, fez desmoronar os negócios que teimavam em subsistir.

Monte Real tem agora grande parte das suas unidades hoteleiras à venda e há uma vila que não sabe como se reerguer sem o gancho do termalismo.

A dependência de um único factor de atracção tem feito grandes estragos noutros pontos do País, como Fátima, onde os negócios congelaram a partir do momento em que a Covid-19 fechou fronteiras e retirou os peregrinos da cidade. No entanto, um pormenor separa estas duas realidades. Em Fátima, não se apagou a chama da fé e será uma questão de tempo até que a pandemia dê tréguas e possibilite o regresso do turismo religioso, confiam os empresários (ver caixa no final). Já em Monte Real, as termas encerraram e o aeroporto, esperança para muitos, nunca passou disso mesmo: de um sonho.

Hotéis novos ou antigos, quase todos para vender

“Passei lá bom momentos, nas festas onde revia os meus colegas do Ultramar. E quando lá actuava o rancho folclórico.” A recordação, em tom de lamento, ouve-se no café, mesmo ao lado do Rainha Santa, antigo hotel de Monte Real, fundado em 1974, um estabelecimento de duas estrelas e 26 quartos, que está à venda por 530 mil euros.

Fotos de Ricardo Graça

O Santa Rita, outro hotel icónico da vila, unidade de duas estrelas com 80 camas, também está à venda por 1,6 milhões de euros.

No site da Imovirtual, somam-se os hotéis de Monte Real que estão à procura de novo proprietário, sejam eles novos ou antigos, já encerrados ou em actividade.

No mercado, com preço sob consulta, encontramos o Peninsular, um hotel três estrelas com 57 quartos e três suites, que se mantém em funcionamento.

À venda como nova e no activo, também com preço sob consulta, está ainda outra unidade hoteleira, de quatro estrelas, composta por villas/apartamentos, bungalows e quartos, integrada num complexo com muitas comodidades, entre as quais piscina, jacuzzi e sala para jorkyball.

Com suites, quartos e restaurante, mas já desactivado e a carecer de restauro está outro antigo hotel, situado no centro de Monte Real, à venda por 180 mil euros.

Joaquim Vitorino, responsável pelo Rainha Santa e também presidente da Associação de Turismo de Monte Real, explica que, entre os nove hotéis e pensões que subsistem, apenas três confirmaram que irão reabrir portas no dia 1 de Junho, indicador que traduz a situação limite a que chegaram.

“Estão com a corda ao pescoço”, admite o dirigente.

O que aconteceu com o Rainha Santa replicou-se pelas várias unidades hoteleiras da vila. Depois das cheias de 2014, as termas receberam obras de recuperação, mas só voltaram a funcionar durante mais alguns meses. Desde então, os hotéis deixaram de contar com o seu principal mercado, que eram os termalistas.

Como outros, o hotel Rainha Santa tentou depois voltar-se para o mercado da praia, procurando captar outros turistas pela proximidade de Vieira de Leiria. Mas a chegada da pandemia, com os constrangimentos impostos às viagens, fez quebrar o movimento dos turistas estrangeiros e também dos nacionais, salienta Joaquim Vitorino. Acresce que o Rainha Santa foi sempre um negócio gerido pela família, que não há muito tempo teve de realizar um investimento considerável para se ajustar às novas leis e poder converter a pensão em hotel. Mas, nesta fase, “já não vale a pena investir”, acredita o hoteleiro.

Embora ainda não tenha encerrado, o mais provável é que esta unidade venha a cessar actividade, admite Joaquim Vitorino. A única solução para revitalizar a vila seria a rápida decisão de criar um aeroporto em Monte Real. Mas a esperança é pouca e “promessas eleitorais não chegam”, frisa o empresário.

Como peças de dominó, depois de caírem as termas e as unidades hoteleiras, todos os outros negócios começaram a ceder. “Comércio, restaurantes, estão todos no mesmo barco”, realça Joaquim Vitorino. “Quase tudo o que é negócio em Monte Real está à venda. Alguns só não têm placas à vista por vergonha”, lamenta o dirigente.

Desanimado estava também Faustino Guerra, presidente da União das Freguesias de Monte Real e Carvide. Pelos menos “até há quatro ou cinco semanas”, quando, em reunião com responsáveis pelas termas de Monte Real e da Câmara de Leiria, percebeu que, “se os valores das águas termais continuarem a estabilizar, a estância pode voltar a realizar tratamentos”.

No entanto, para o autarca, o ideal, não só para Leiria como para toda a zona Centro, seria mesmo a abertura da base aérea à aviação civil.

Ana Esperança, vereadora do Município de Leiria, que no mês passado fez um ponto de situação sobre as termas em reunião de Câmara, lembrou que, durante as cheias de 2014, o rio Lis saltou as margens, atingindo a unidade termal, provocando “avultados prejuízos, quer nos edifícios, quer no sistema aquífero”.

Em reunião com a concessionária das termas, a autarca confirma que a empresa tem vindo a envidar esforços, mas que “ainda não foi possível que o sistema readquirisse o equilíbrio físico-químico do aquífero hidromineral”.

Também em Março, a Câmara de Leiria promoveu uma reunião com a Câmara da Marinha Grande e várias associações da região, onde estas tomavam uma posição conjunta no sentido pressionar o Governo para abrir a Base Aérea n.º 5 à aviação civil.

Atrás da hotelaria, tudo decai

Funcionária há 30 anos no mini-mercado O Jorge, Rosa Fonseca confirma que, desde que encerraram as termas, se vê Monte Real a perder vida a cada ano que passa. Actualmente são os residentes, sobretudo os idosos, que têm mais dificuldade em deslocar-se para fazer compras em Leiria ou na Marinha Grande, quem ainda vai alimentando este pequeno negócio. Mas o cenário nada tem a ver com o que se vivia há décadas em Monte Real, quando havia muita gente instalada nas pensões e nos hotéis, que chegavam à vila para fazer termas e sempre passavam no mini-mercado para fazer umas compras, conta a funcionária.

Já passou metade da sexta-feira, que até costuma ser um dia bom, e não entrou mais de uma dezena de clientes na loja. E durante a semana é sempre mais fraco, relata Rosa. “Está tudo parado à espera das termas ou de eventos que cá se façam para atrair pessoas”, expõe.

Desanimados estão também os vendedores do Mercado Municipal de Monte Real. “Está péssimo”, atira Maria dos Anjos Serrano, que ali vende frutas e legumes há mais de 40 anos. “A Câmara devia fazer pressão para as termas reabrirem”, defende a vendedora, triste por ver “tudo a fechar, tudo a morrer”.

Eduardo Fonseca, que abriu a sua churrasqueira há 18 anos, constata que o problema de Monte Real está longe de se ficar pela pandemia. Quando as termas funcionavam, era muito maior a quantidade de pessoas que passava para levar almoço da churrasqueira. “Era gente com alguma idade, que fazia cá termas, e que durante aquela semana ou duas, em que ficava em Monte Real, acabava por fazer consumo e animar outros negócios”, recorda. A pandemia veio acentuar mais os prejuízos: “teremos quebrado 35% a 40% da facturação”, estima o comerciante.

Desejando a criação do aeroporto, Eduardo reconhece que, a acontecer, será coisa para os seus “filhos ou netos”. Enquanto isso, “as pessoas estão a vender os negócios ao desbarato”, lamenta Eduardo.

Pedro Carvalho, de 43 anos, reside e tem o seu negócio em Monte Real, onde gere uma das suas lojas O Frade, de artigos de decoração e bricolagem. Recorda-se perfeitamente dos Verões em que “os passeios da vila eram pequenos para tantos turistas” que por ali passeavam, um cenário que contrasta com o actual. Reconhece que o encerramento das termas prejudicou bastante os negócios da vila e lamenta que os esforços realizados depois disso, no sentido de dinamizar Monte Real, como o Festival da Morcela ou algumas provas de atletismo e caminhadas, também tenham sido suspensos por causa da pandemia.

Esse é um dos passos a seguir para devolver vida à vila, considera o morador, que está também expectante quanto ao resultado das obras de requalificação da Rua de Leiria. Todas as intervenções que beneficiem a localidade “são bem-vindas”, mas Pedro Carvalho receia que, até à conclusão, os trabalhos na estrada demovam o público de se aproximar das lojas instaladas na zona.

Pequenos negócios abrem em contraciclo

Quando a tendência é para encerrar portas, alguns comerciantes estão a apostar em contraciclo e a abrir negócios na vila, em plena pandemia. Estão a tentar a sua sorte em actividades alternativas, que julgam ter capacidade de manter sem depender das termas. Amores da Mi, uma loja de artesanato e de artigos de retrosaria, que abriu em Monte Real em Dezembro de 2020, é disso exemplo. Mariana Santos já tinha uma loja do género na zona das Várzeas, mas entendeu no ano passado que era tempo de encontrar um espaço numa zona mais central, que lhe desse mais visibilidade.

Foi também há três anos que Marco Carvalho abriu o seu atelier de fotografia em Monte Real. Ouviu dizer que o movimento da vila em nada se comparava ao dos tempos em que as termas faziam pulsar a localidade, mas entende que, assim a pandemia dê tréguas, poderá ter condições para manter o negócio. Diz-se “optimista” e salienta que, uma vez feita a aposta, tem de tentar aguentar o espaço o mais que puder, até para rentabilizar o investimento que já realizou.

Paragem temporária em Fátima
 
Em Fátima (Ourém), a economia sente actualmente dificuldades semelhantes às de Monte Real, no sentido em que a generalidade dos negócios depende do turismo religioso, quer de peregrinos nacionais (30%) quer de estrangeiros (70%), sendo que a pandemia fez parar toda essa dinâmica.
 
No mês passado, a Associação Empresarial Ourém-Fátima (Aciso) avançava as conclusões do seu inquérito, realizado dois meses antes junto de 61 empresários da hotelaria: “72% das empresas encontravam-se encerradas” e, destas, “88% não tinham qualquer previsão de data de abertura”, enquanto “10% previa abrir em Março”.
 
Mas para Purificação Reis, presidente da Aciso, existe, no entanto, uma grande diferença entre Fátima e Monte Real. No caso de Fátima, o grande ponto de interesse, que é o Santuário, mantém-se. E será apenas uma questão de tempo até que os números da pandemia decresçam e seja encontrada forma de retomar viagens em segurança.
 
Enquanto o mercado internacional não chega, é importante procurar alternativas para captar turistas nacionais, advoga ainda. A campanha 10.001 Noites, lançada pelo Município de Ourém, que assegura a oferta da segunda noite de estadia a quem pernoitar no concelho, e que atribui um voucher para uma refeição num restaurante local, é disso bom exemplo, expõe.
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