Sociedade
"Houve alturas em que me senti impotente para ajudar as pessoas”
Presidente da Junta de Monte Redondo, diz que "há muito por fazer na freguesia", que após ver regressar a autonomia administrativa sofreu o choque do impacto das tempestades do início do ano
Apesar de já contar com vários anos de experiência como deputada municipal e membro da assembleia de freguesia, nada preparou Ana Carla Gomes, 54 anos, para os desafios que aguardavam quando venceu, pela primeira vez, as autárquicas de Outubro em Monte Redondo. Para além do processo burocrático de desanexação da união com a freguesia da Carreira, a tempestade Kristin e os temporais do início do ano trouxeram o caos logístico, com falhas nas comunicações que perduravam em Maio. Com um sorriso no rosto e um temperamento amável, esta professora de português nascida em Angola admite que o mandato será diferente do que equacionava. Há, porém, a expectativa de cumprir alguns dos eventos do calendário da freguesia, assim como de avançar com projectos previstos no programa eleitoral.
Como têm sido estes seis meses desde a tempestade?
Muitos desafios diários, a todos os níveis. Na tempestade, logo a seguir, foi o tentar chegar a toda a gente. Perceber quem precisava de ajuda — toda a gente precisava. Tentar ajudar as pessoas a colocar lonas nos telhados, numa primeira fase. Ver quem estava isolado. Criar equipas para ir a todo o lado. Gerir as dezenas e centenas de voluntários que vieram e foram uma ajuda muito grande. Enquanto isto, tinha de ir todos os dias para os briefings, onde estavam as entidades, em Leiria. Demorava imenso tempo, porque levava mais de uma hora a chegar a Leiria e só regressava depois de almoço. A junta esteve aberta um mês sem fechar, das 08h00 até à hora que fosse. Criámos um centro para distribuir alimentos, em especial água, porque estivemos uma semana e meia sem água na maior parte da freguesia. Sem luz foi um mês; houve pessoas mais de um mês. Hoje [13 de maio] ainda há pessoas sem comunicações. Depois foi tentar encontrar pessoas que nos ajudassem a desobstruir os caminhos. Foi muito complicado…
O que ainda falta fazer?
Ainda falta fazer muito. Fomos das freguesias mais afectadas, em particular a nossa floresta. Maceira, Monte Redondo e Souto foram as três freguesias que sofreram maior dano, também porque tínhamos muita floresta que não tinha ardido. Os pinhais ainda estão cheios de lenha, porque as pessoas não têm como a tirar: umas porque não conseguem arranjar ninguém, não têm meios ou não têm dinheiro; outras querem chegar aos terrenos mas não conseguem, porque estão obstruídos, e não sabem quem são os proprietários. A partir de 1 de Junho a Câmara de Leiria já pode intervir e começar a limpar. Isso vai ser uma ajuda grande, para as pessoas poderem ir chegando gradualmente aos seus terrenos. Aqui sucede que as pessoas têm parcelas muito pequenas, então há mesmo muitos proprietários.
Como tem sentido a população?
Sentimos que as pessoas ficaram muito afetadas psicologicamente. Tivemos apoio de alguns psicólogos voluntários e também da Câmara Municipal, mas achamos que é insuficiente. Ainda há pessoas que não conseguem dormir descansadas. E todos nós, que passámos isto, sempre que vem vento ou chuva ficamos aflitos. Fizemos um levantamento das pessoas com necessidade de oxigénio e criámos quartos, nas salas de catequese, para que pudessem ficar algum tempo com a máquina da apneia. Mas a maior parte das pessoas não queria sair de casa. Depois tivemos muitas inundações…
Depois veio a chuva…
As pessoas ficaram com casas inundadas, caves cheias, porque há muitas linhas de água com casas em cima e a natureza agora vem ao de cima. Ainda estamos a trabalhar nisso. Tivemos uma formação com a Agência Portuguesa do Ambiente (APA), porque as linhas de água são também responsabilidade dos proprietários dos terrenos confinantes, mas a maior parte das pessoas acha que tem de ser a junta ou o município a limpar. Nós não temos muitos meios e durante a tempestade ficámos sem tractor, partiu-se, assim como a motoserra. Todos os dias acontecia alguma coisa. Estes seis meses foram muito intensos, muito intensos, e muito difíceis.
A grande preocupação agora é o risco de incêndio.Preocupa-a?
Sim, preocupa-nos bastante. Ainda ontem estivemos reunião na unidade local de Proteção Civil. Para além da vigia no Cabeço, vamos dividir-nos por equipas e começar a passar pelas localidades. Já tivemos dois pequenos incêndios, controlados, mas com calor isto é uma fonte de ignição.
O que vai acontecer com a madeira?
A partir de 1 de Junho, a madeira que a Câmara retirar vai para um estaleiro ainda a definir. O Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) disse que o Governo vai dar algum incentivo monetário às pessoas para deixarem limpar. O importante é retirar. Vai começar pelos aglomerados urbanos, depois terrenos junto a empresas e depois caminhos florestais. Mas isto ainda vai demorar pelo menos um ano. E os apoios às pessoas? Algumas já tiveram resposta, sobretudo dos seguros. Ainda há muita gente à espera.
Como ficaram casas e empresas?
Essencialmente telhados. Houve situações de maior vulnerabilidade que vieram ao de cima. Também identificámos casos mais graves do que se sabia, quando entrámos nas casas. As assistentes sociais do município acompanharam. Nas empresas, a MTL ficou com máquinas destruídas. E a Germiplanta teve um prejuízo enorme. Há pequenas estufas e algumas pessoas já disseram que vão desistir, porque não conseguem reerguer-se.
Que lições tira destes meses como presidente de junta?
Foram seis meses muito intensos. Dá a sensação de que ainda não parou. Já tinha experiência na assembleia de freguesia, mas estar à frente é diferente. Houve alturas em que me senti impotente para ajudar as pessoas. Queria chegar a mais lados e não podia. Nas juntas, isso sente-se muito: dependemos do município, de burocracias, e muitas coisas têm de ser resolvidas de imediato. É estar sempre alerta. Não tem sido fácil.
O que a fez candidatar-se?
Estou ligada à comunidade — sou professora há 31 anos no Colégio Dr. Luís Pereira da Costa — e sempre estive envolvida na assembleia de freguesia e noutras estruturas locais. Pensei muito e aceitei o convite para dar esse contributo. É uma experiência muito desafiante, mas também com coisas boas. O mais difícil é não conseguir dar respostas no tempo que gostaria.