Sociedade
Inundações em Leiria obrigaram à retirada de pessoas. "É um mar autêntico”
Moradores foram levados para locais seguros
Vários pontos das zonas ribeirinhas de Leiria estão inundados, com os cursos de água a transbordarem em locais de leito de cheia como a Ponte das Mestras, o Parque Verde de Leiria ou o Parque da Almuinha Grande, nas proximidades do Estádio Municipal Magalhães Pessoa.
A chuva intensa e persistente da tempestade Leonardo obrigou à evacuação de diversas áreas próximas à cidade.
Clarinda e José moram numa zona baixa à entrada de Leiria, num ponto onde a Linha do Oeste se cruza com os rios Lis e Lena.
Foram retirados do seu lar por precaução na última madrugada. Primeiro, chegaram os bombeiros, depois os militares da Força Aérea levaram o casal septuagenário para o Centro Pastoral da Cruz da Areia, para junto de outros 64 desalojados.
Alguns, como eles, retiraram suas lares devido à subida dos rios Lis e Lena e outros que já ali foram encontrados há uma semana, na sequência da tempestade Kristin.
“O meu marido teve um tumor na garganta e foi operado e está prestes a começar a hemodiálise”, conta, cansada, a mulher. À volta da casa onde deixaram as duas cadelas, que atividades como filhas, é “um mar autêntico”.
A moradia tinha sofrido com a tempestade de há oito dias e parte da garagem desabou e foi parcialmente reparada pelo filho que habita em Sintra, mas foi a subida da água, como dizem nunca ter visto, que acabou por tirá-los para fora do lar.
“Os nossos terrenos parecem um lago”, afirma a moradora que só pede que tudo acabe para poder voltar para os seus animais e para a rotina do quotidiano e alguma ajuda para reparar o telhado, cujos buracos estão alagar a casa.
Não deixa de terminar a conversa sem, contudo, deixar uma palavra de preço pelos operacionais da Força Aérea Portuguesa que os transportaram para a Cruz da Areia.
“Sabemos que a Protecção Civil apenas requisitou quatro militares na Kristin, mas por aquilo que me disse, houve muitos, muitos, que se deslocaram para a nossa zona, à paisana, para nos acudir.”
Em São Romão, Leiria, Jorge Santos, proprietário do café O Juvenil, olha para o outro lado da rua em frente ao estabelecimento, onde a água do rio Lis impede o acesso às instalações da Protecção Civil Municipal e da Escola Profissional de Leiria.
Diz que não recebeu que a inundação chegou ao seu prédio, que perdeu telhas e sofreu danos numa chaminé durante a passagem da tempestade Kristin.
A última vez que o curso de água subiu tanto terá sido “há uns 18 anos”. "Não tenho coleta. A Proteção Civil não me disse nada, por isso, estou descansado."
Ao seu lado, José António Jesus Silva, que habita numa moradia a dois passos d'O Juvenil, segura uma cadeira de plástico que teima em tentar fugir da esplanada, levada pelo vento.
Também não está preocupado com a subida da água que flui em torrente desde o estacionamento do pavilhão desportivo da Juve Lis, que parece uma ilha no meio de um grande lago de cor castanha.
“Na Ponte das Mestras é que aquilo é complicado”, dizem, acenando a cabeça.
A tempestade da semana passada é que não lhes sai da cabeça.
“Mas agora temos de ter esperança”, concordam ambos.