Sociedade

Jorge Bernardino: "Em 2026 nem um terço do que tínhamos previsto vamos conseguir executar”

15 set 2026 10:14

Presidente da Junta do Arrabal, assumiu o executivo da junta de freguesia aquando da saída de Helena Brites. Em Outubro venceu as eleições, mantendo a liderança do PS

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Claúdia Gameiro

A tempestade Kristin em Janeiro mudou completamente as prioridades autárquicas. A fotografia de uma casa de madeira no Arrabal, parcialmente destruída, circulou por vários órgãos de comunicação social nacionais e regionais. Como viveu o Arrabal as consequências da tempestade?
A tempestade foi como uma bomba que caiu no território, no concelho e nos concelhos vizinhos. Sobretudo com os executivos acabados de tomar posse há dois/três meses. Foi uma coisa que nunca tínhamos vivido, não estávamos sequer preparados para isto, e, de repente, tivemos que arregaçar mangas e enfrentar os problemas. Em termos de freguesia, depois de um balanço final, eu penso que não fomos das mais afetadas. Tivemos muita zona afectada, como todas as outras. Foi um misto de tristeza, de ver a necessidade das pessoas, que estavam completamente desorientadas, desoladas, não sabiam como reagir. Tivemos bastante apoio do município, todos juntos conseguimos reerguer e reabilitar a nossa freguesia. Tivemos problemas graves ao nível das telecomunicações, electricidade, água e luz. Estes últimos foram repostos de forma mais célere, mas ainda hoje [final de Junho] há alguns problemas a resolver com as operadoras. A única coisa boa disto tudo é que constatámos que houve uma grande solidariedade das pessoas para com os órgãos. Conseguimos formar um grupo de voluntários muito positivo que esteve no terreno a ajudar e a fazer o levantamento das necessidades. Acabámos por ver o espírito de solidariedade das pessoas a surgir. Mas foi um impacto grande…

Em termos de estragos, dos telhados à floresta, onde foi o maior impacto?
Telhados, floresta, água, luz, telecomunicações, os bens essenciais, televisão… Mas essencialmente nos edifícios foram os telhados e as inundações que provocaram e, na floresta, que estamos a começar a resolver. Neste momento encontra-se a decorrer a desobstrução dos caminhos, temos uma equipa contratada pela Protecção Civil da Câmara Municipal. Na segunda fase irá decorrer a desobstrução e limpeza dos terrenos, que é algo que nos preocupa devido à época de incêndios. Vamos ver como corre…

Alguns autarcas admitem que a tempestade Kristin acabou por revelar fragilidades na construção local de edifícios. Foram identificados problemas semelhantes na freguesia do Arrabal?
Revelou algumas fragilidades nalgumas construções mais antigas... Houve duas ou três construções que tiveram graves problemas. Houve – se calhar caso único no concelho – uma família que ficou com a casa completamente destruída, uma casa em madeira que voou. Eles ficaram desalojados e tivemos que recorrer a uma casa móvel. Foi o caso mais grave em termos de habitações. Também algumas casas mais antigas, com construções muito antigas, não resistiram muito, ficaram desalojados e tivemos que recorrer ao lar social. Mas não houve grande destruição em termos de estruturas e abatimento de estradas como noutras freguesias. Não tivemos esse problema. Foi sobretudo telhados e alguma indústria com pavilhões afectados.

Mencionou a questão da limpeza da floresta. Como se encontra a preparação para a época de incêndios? É um tema que o preocupa?
Sim, preocupa bastante! Costumamos ter um plano de vigilância das nossas florestas, que já vem de há cinco/seis anos, com percursos que os nossos voluntários percorrem todos os dias. Temos uma vigilância apertada e vamos continuar a implementar esse plano. Temos muita área de floresta caída ainda, para retirar dos terrenos, e sabemos que não vai ser retirada em tempo útil porque é impossível. A preocupação maior agora é a desobstrução dos caminhos, para que os meios possam acorrer e socorrer se for necessário.

Em termos de desobstrução dos terrenos e árvores caídas, tem recebido muitas queixas da parte dos populares?
Temos. A população tem recorrido a nós para saber quando vai ser reposta a normalidade dos terrenos. Alguns – não muitos – manifestaram a intenção de poder limpar os seus terrenos, mas a obstrução dos terrenos não o permitia. Inscreveram-se na plataforma do ICNF e estão a aguardar que os caminhos sejam desbloqueados. Mas em termos de proprietários não houve muita adesão à tentativa de serem eles a limpar...

Porquê? Consegue enumerar algumas causas?
Não sei. Penso que a grande maioria são herdeiros, não sabem onde ficam os terrenos. Temos uma parte grande de serra florestal e nós vemos até pelas tentativas de registo no BUPi que as pessoas não sabem onde são os terrenos. Os terrenos mais próximos das populações, as pessoas têm mostrado preocupação. Nos outros é ver o que dá… Vêm, mas não é uma preocupação massiva…

Há poucos anos houve um grande incêndio no Arrabal. Este tipo de situação pode criar constrangimentos aos bombeiros?
Pode criar. Estamos a resolver o problema dos acessos, começando pelos prioritários. Foi feito um levantamento, temos aqui um mapa com o levantamento dos caminhos. Tivemos reunião nesse campo. Com a criação da OIGP 2.0 a Câmara Municipal vai proceder à limpeza das zonas prioritárias de incêndio, identificadas a vermelho, sobretudo as zonas que rodeiam as nossas casas. [mostra o mapa] Tudo o que está a vermelho e roxo é perigosidade máxima.

Isto é quase a freguesia toda…
É quase. Mas não são as zonas todas afectadas da freguesia. As zonas afectadas e prioritárias são junto às localidades.

Este cenário tem-lhe tirado o sono?
Tem tirado. Temos tido várias reuniões, as coisas estão a avançar, o município está a avançar, mas também tem os seus trâmites legais.

Como presidente, o que o afectou mais neste processo todo, desde a tempestade a ter que lidar com todo um conjunto de situações que, como dizia, não estavam preparados para viver?
Foram os prejuízos e a desolação que provocou nas nossas populações. Vimos pessoas completamente abatidas com os prejuízos que tiveram, umas mais que outras, menos. Foi isso que me deitou abaixo e tirou muitas horas de sono. Pessoas que todos os dias batiam à porta a perguntar quando vinha a água e a luz. Os bens essenciais, que ficámos de repente sem nada. Conseguimos montar um quartel-general na junta e no pavilhão para acudir a banhos… Tivemos tudo disponibilizado, com muito apoio do município. Com uma Starlink, para as pessoas poderem comunicar, fazer telefonemas, mandar e-mails. Isto durante um mês. O primeiro mês, Fevereiro, foi terrível! Depois, isso que me desolava: todos os dias tinha aqui pessoas a chorar, à procura de ajuda. E estas coisas acontecem sempre a quem tem menos possibilidades... Tivemos muita ajuda de instituições, voluntários, e ajudámos em termos sociais muita gente.

Que efeitos a tempestade teve no plano que tinha definido para o seu mandato?
Virou tudo de pernas ao ar. Por estratégia do município, mudou-se completamente a prioridade das coisas. Obras a realizar em 2026 ficaram em stand-by porque as verbas tiveram que ser canalizadas para outro lado. Este ano de 2026 nem um terço do que tínhamos previsto vamos conseguir executar. Mas vamos executar em 2027.

O que preveem fazer só para o ano que vem, que estava previsto para este ano?
É a execução dos contratos interadministrativos das obras diversas, com a construção de passeios, arruamentos, pavimentações, lotes de pavimentações, embelezamento de algumas infraestruturas públicas. Tudo isso foi posto em stand-by e não sei se vamos conseguir executar alguma coisa este ano.

Sem ser da Kristin, que tipo de queixas/dificuldades lhe chegam da parte dos fregueses?
As dificuldades normais da gestão de uma junta de freguesia. Eu costumo dizer que isto é uma casa onde temos que ouvir todos. Todos têm os seus problemas. Para a grande maioria das pessoas os problemas são com a porta da casa, digamos assim: o seu buraco, a sua limpeza da rua, as suas preocupações, que são as delas. E isto tudo somado são os problemas duma freguesia. Temos que os saber ouvir e tentar canalizar. Até porque os nossos meios próprios, financeiros e humanos, são escassos, não temos grandes receitas próprias, e as prioridades mudaram com a tempestade.

Assumiu a presidência o ano passado, mas tem uma vida autárquica e associativa já longa. O que fez começar a envolver-se a este nível com a comunidade?
Isto partiu de uma conversa com a Dra. Helena Brites... Aqui há 15 anos, se me falasse que eu ia ser um autarca do Arrabal, eu dizia-lhe que não. Mas um dia estávamos numa conversa e elogiei o trabalho da Dra. Helena, manifestando vontade de ajudar no que fosse necessário. Mas nunca naquela perspectiva de chegar onde cheguei! Ela então falou em incluir-me na lista e meteu-me num lugar elegível para a assembleia. O bichinho começou a entrar. Fiz parte quatro anos da assembleia e comecei a gostar da envolvência que isto traz para a comunidade, para a freguesia. No mandato seguinte da Dra. Helena convidou-me para os lugares de executivo e acabei por ir sendo encaminhado por ela. E estou hoje aqui para cumprir o meu mandato.

Como olha, à luz da experiência que tem, para a política autárquica?
A política autárquica para mim não é política. Digo isto a toda a gente: nós não podemos ser políticos! É certo que nós somos apoiados por um partido político, por listas conotadas com partidos políticos, mas numa freguesia como a nossa, com cerca de 2.800 habitantes, não podemos fazer políticas. Porque nós cruzamo-nos com os habitantes todos da freguesia diariamente. Nós temos que fazer uma política de “proximidade” com as pessoas. Fazer uma política partidária não resulta nos pequenos meios como o nosso.

Qual a sua perspectiva sobre a freguesia do Arrabal?
O Arrabal é uma freguesia pequena, com cerca de 2.400 eleitores, 2.800 habitantes. É uma freguesia rica culturalmente, somos uma referência no concelho. Somos uma referência na área da Proteção Civil. Não somos tão fortes a nível industrial e a nível comercial porque temos o senão de estarmos próximos de dois grandes centros: Leiria e Fátima. As pessoas acabam por deslocar-se para esses locais para trabalhar. Mas temos a nossa actividade comercial, algumas indústrias, mas não é o nosso forte. Conseguimos dar um bem-estar à população para viver. Estamos a 10 minutos de Leiria e a 15 minutos de Fátima. As pessoas circulam facilmente, pelo que é fácil fixar aqui pessoas. Também somos fortes no associativismo. Somos a única freguesia do concelho, se calhar do distrito e poucas no país, que tem duas filarmónicas. Isso revela um pouco o que é o nosso associativismo. Temos um rancho, temos um coro, temos uma série de associações…

Que projectos gostava de ver implementados no Arrabal?
Essencialmente melhorar a qualidade de vida das pessoas, ao nível de infraestruturas. Não estamos mal ao nível de pavimentações, mas melhorar. Estamos servidos de escolas e lares, pelo que projectos grandes não temos necessidade. Mas melhorar os espaços públicos, ajudar e incentivar o associativismo.